Ao ligarmos o noticiário político internacional ou nacional, é cada vez mais comum depararmo-nos com bandeiras religiosas, discursos apocalípticos e líderes políticos que se apresentam não apenas como governantes, mas como figuras ungidas por Deus. Esse fenômeno não é um acidente histórico, mas o reflexo da expansão de uma corrente ideológica e teológica conhecida como Teologia do Domínio. Compreender o que ela significa, como se conecta com a ascensão da extrema direita global e de que maneira repete velhos padrões ditatoriais da história humana é essencial para quem defende a democracia e o Estado laico.
Em termos conceituais, a Teologia do Domínio, muitas vezes associada ao dominionismo, é um conjunto de correntes com raízes no protestantismo conservador norte-americano e ramificações em outras esferas religiosas. Ela interpreta o famoso texto bíblico do Gênesis sobre ter domínio sobre a criação não como um chamado ao cuidado ecológico ou à gestão ética, mas como um mandato político estrito. De acordo com essa visão, os grupos que detêm a interpretação correta da fé teriam o dever divino de conquistar e submeter as instituições civis, incluindo o governo, a justiça, a educação, a mídia, a cultura e a economia. Em vez de separar a fé da esfera pública, o dominionismo prega que as leis civis devem ser subordinadas a preceitos religiosos, transformando crença espiritual em um projeto explícito de poder terreno.
Nas últimas décadas, essa teologia deixou os compêndios marginais para funcionar como a argamassa ideológica da extrema direita contemporânea em várias partes do mundo. Essa aliança se sustenta em pilares estratégicos muito claros, a começar pela lógica do "nós contra eles", onde a política deixa de ser um debate republicano e passa a ser tratada como uma batalha espiritual, transformando o adversário político em um agente do mal. Outro pilar é o mito do líder ungido, que faz com que líderes populistas de extrema direita, mesmo com biografias distantes da moral religiosa tradicional, sejam vistos como salvadores cujos excessos são perdoados em nome de sua missão restauradora. Completa esse cenário o revisionismo nacionalista, que promove a ideia de que o país era originalmente uma nação cristã corrompida por forças seculares ou minorias, justificando medidas de exceção.
A instrumentalização da religião para fins de controle político não é novidade, pois a história demonstra que o cruzamento entre o altar e o trono sempre gerou regimes de opressão. O uso da religião como ferramenta de domesticação social e legitimação de tiranias é uma das táticas mais antigas do poder autoritário. Durante séculos, monarquias absolutistas justificaram abusos alegando responder apenas a Deus, tornando a contestação política um pecado passível de punição. Da mesma forma, o fascismo e o nazismo na Europa buscaram legitimação junto às igrejas tradicionais para anestesiar o pensamento crítico das massas, enquanto teocracias modernas mostram o ápice desse projeto ao fundirem lei civil e religiosa para erradicar liberdades individuais.
O perigo central da Teologia do Domínio e sua simbiose com a extrema direita reside na destruição da pluralidade democrática. Uma democracia saudável exige tolerância, alternância de poder e a premissa de que nenhuma visão de mundo pode se impor de forma absoluta sobre os demais cidadãos. Quando a política é vestida com mantos sagrados, o debate racional morre, o dissenso passa a ser considerado heresia e o autoritarismo ganha o aval de fiéis que acreditam lutar pelo bem, mas que acabam servindo a projetos de dominação terrena e exclusão social. Estar atento a esses discursos é o primeiro passo para defender a liberdade de crença e a integridade das instituições democráticas.
O que você tem observado sobre o avanço desse discurso religioso na política do nosso país? Deixe sua opinião nos comentários!
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