27 julho 2026

O PMRR como Pilar da Gestão Territorial e Redução de Desastres

 A gestão de riscos no Brasil viveu, por décadas, um paradigma prioritariamente reativo: esperava-se a tragédia acontecer para, então, mobilizar recursos de socorro, assistência e reconstrução. No entanto, a consolidação da Lei Federal nº 12.608/2012 e os avanços na governança ambiental e urbana no país apontaram para uma mudança definitiva de rumo — e é exatamente nesse contexto que o Plano Municipal de Redução de Ricos (PMRR) se afirma não apenas como um documento técnico, mas como um instrumento estruturante de política pública e planejamento territorial.

Longe de ser uma simples formalidade burocrática, o PMRR é o ponto de encontro entre a geociência aplicada, a engenharia e a realidade socioespacial das cidades brasileiras.

O PMRR como Instrumento de Gestão Territorial Integrada

O planejamento urbano no Brasil historicamente negligenciou a dinâmica do meio físico. O resultado desse descompasso entre a ocupação e a dinâmica natural dos sistemas terrestres é a proliferação de áreas vulneráveis, sobretudo em encostas declivosas, planícies de inundação e áreas marcadas pela variação do nível de marés.

É aqui que o PMRR atua como elo entre a defesa civil e o planejamento urbano:

  • Mapeamento de Precisão e Tipificação de Cenários: O plano não aponta apenas "onde" está o risco, mas qualifica a sua natureza (escorregamentos, solapamentos de margem, enxurradas, erosão contínua ou colapsos cársticos) e mensura o grau de severidade (de R1, baixo, a R4, muito alto).

  • Subvenção ao Plano Diretor e ao Uso do Solo: Sem o detalhamento trazido pelo PMRR, o Plano Diretor corre o risco de ser uma carta de intenções abstrata. O mapeamento do risco impõe limites reais à expansão urbana, orienta o zoneamento socioambiental e define parâmetros construtivos indispensáveis.

  • Hierarquização do Investimento Público: Em municípios com orçamentos restritos, a tomada de decisão não pode ser empírica. O PMRR fornece uma matriz de prioridades embasada em critérios científicos, indicando onde as obras de intervenção estrutural (contenções, drenagem, consolidação) e não estrutural (sistemas de alerta, remoções pontuais, reassentamento assistido) terão maior impacto na salvaguarda de vidas.

Além do Concreto: A Dimensão Social do Risco

Um dos grandes equívocos da engenharia tradicional foi abordar o risco estritamente sob o prisma físico — o volume de chuva contra a resistência do solo. A pesquisa contemporânea em desastres, alinhada aos marcos internacionais como o Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres (2015-2030), demonstra que não existem desastres naturais; existem eventos naturais que atingem sistemas vulneráveis.

O risco é uma construção social. Ele se materializa onde a vulnerabilidade socioeconômica encontra com manifestação de fenômenos naturais, de origem geológica ou hidrológica.

Por essa razão, a elaboração de um PMRR verdadeiramente eficaz exige a integração da cartografia social. Ouvir a comunidade, mapear a memória dos eventos históricos através do saber local e envolver os moradores no reconhecimento dos sinais de instabilidade do terreno são etapas tão vitais quanto as modelagens matemáticas de estabilidade de taludes ou a morfometria de bacias hidrográficas.

Quando a população compreende o diagnóstico e participa da construção das alternativas de mitigação, o plano deixa de ser um relatório guardado na prateleira da prefeitura e passa a ser uma ferramenta de cidadania e resiliência comunitária.

Desafios para a Efetividade das Políticas Públicas

Apesar de seu papel central, a consolidação do PMRR no Brasil enfrenta gargalos históricos que precisam ser superados:

  1. A Armadilha da Descontinuidade: O PMRR não é um retrato estático. A dinâmica de ocupação das cidades e as frequentes alterações na magnitude dos eventos pluviométricos exigem que o plano seja revisado periodicamente. Um mapa de risco desatualizado pode gerar diagnósticos falsos e intervenções equivocadas.

  2. Da Análise à Ação: O mapeamento é o diagnóstico, não a cura. Para que o PMRR se concretize como política pública de fato, seus apontamentos devem estar explicitamente vinculados ao Plano Plurianual (PPA), à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e à busca por financiamentos federais e internacionais.

  3. A Adaptação às Mudanças Climáticas: A intensificação de eventos extremos exige que as metodologias de análise de risco incorporem projeções climáticas futuras, prevendo cenários onde limiares críticos de precipitação serão ultrapassados com maior frequência.

Um Compromisso com o Futuro das Cidades

Investir na elaboração e na implementação do Plano Municipal de Redução de Riscos é, em última análise, optar por uma gestão pública ética e preventiva. Cada real aplicado no conhecimento do meio físico, na infraestrutura verde e na consolidação de áreas de risco reduz exponencialmente os custos humanos, sociais e econômicos das reconstruções pós-desastre.

A redução do risco de desastres não é uma agenda paralela ao desenvolvimento urbano; é a precondição para que qualquer desenvolvimento seja justo, sustentável e seguro.


Leituras recomendadas

ACSELRAD, Henri. Vulnerabilidade ambiental, processos socioespaciais e redes de cidadania. In: ENCONTRO NACIONAL DA ANPPAS, 1., 2002, Indaiatuba. Anais [...]. Indaiatuba: ANPPAS, 2002. p. 1-15.

ALHEIROS, Margareth Mascarenhas; SOUZA, Celia Maria; BITTAR, Omar Yazbek; CURCIO, Luciana de Cássia. Manual de mapeamento de perigo e risco a escorregamentos em encostas. Brasília: Ministério das Cidades; IPT, 2007.

BRASIL. Lei nº 12.608, de 10 de abril de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil - PNPDEC; altera as Leis nos 12.340, de 1º de dezembro de 2010, 10.257, de 10 de julho de 2001, 6.766, de 19 de dezembro de 1979, e os Decretos-Leis nos 3.365, de 21 de junho de 1941, e 5.452, de 1º de maio de 1943; e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 149, n. 71, p. 1-5, 11 abr. 2012.

CARVALHO, Célia Regina de Gouveia; SOUZA, Celia Maria; SANTOS, Regina Célia dos (org.). Mapeamento de riscos de escorregamentos e inundações. Brasília: Ministério das Cidades; IPT, 2007.

CHRISTOFOLETTI, Antonio. Geomorfologia. 2. ed. São Paulo: Edgard Blücher, 1981.

EGLER, Claudio Antonio Gonçalves; GUTTERRES, Hirdan Katarina de Medeiros. O risco como dimensão do planejamento territorial. In: SANTOS, Milton; SOUZA, Maria Adélia Aparecida de (org.). A produção do espaço geográfico. São Paulo: Hucitec, 1986. p. 112-128.

MARANDOLA JÚNIOR, Eduardo; HOGAN, Daniel Joseph. Vulnerabilidade e risco: entre a geografia e as ciências sociais. RBG. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 29-53, 2006.

TOMINAGA, Lídia Keiko; SANTORO, Jair; AMARAL, Rosangela do (org.). Desastres naturais: conhecer para prevenir. São Paulo: Instituto Geológico, 2009.

UNDRR. United Nations Office for Disaster Risk Reduction. Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres 2015-2030. Genebra: UNDRR, 2015.

VEYRET, Yvette. Os riscos: o homem como agressor e vítima do meio ambiente. São Paulo: Contexto, 2007.

CHRISTOFOLETTI, Antonio. Geomorfologia. 2. ed. São Paulo: Edgard Blücher, 1981.

EGLER, Claudio Antonio Gonçalves; GUTTERRES, Hirdan Katarina de Medeiros. O risco como dimensão do planejamento territorial. In: SANTOS, Milton; SOUZA, Maria Adélia Aparecida de (org.). A produção do espaço geográfico. São Paulo: Hucitec, 1986. p. 112-128.

MARANDOLA JÚNIOR, Eduardo; HOGAN, Daniel Joseph. Vulnerabilidade e risco: entre a geografia e as ciências sociais. RBG. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 29-53, 2006.

TOMINAGA, Lídia Keiko; SANTORO, Jair; AMARAL, Rosangela do (org.). Desastres naturais: conhecer para prevenir. São Paulo: Instituto Geológico, 2009.

UNDRR. United Nations Office for Disaster Risk Reduction. Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres 2015-2030. Genebra: UNDRR, 2015.

VEYRET, Yvette. Os riscos: o homem como agressor e vítima do meio ambiente. São Paulo: Contexto, 2007.

23 julho 2026

Quando o Dinheiro Muda de Endereço: Desdolarização e a Nova Geografia do Mundo


O pão, o combustível e um mapa que está sendo redesenhado

Pare um segundo antes de ler o restante desta página e pense em três coisas que você fez hoje: talvez tenha comprado pão na padaria, abastecido a moto ou o carro, ou visto o preço de algum produto subir no mercado perto de casa. Nenhuma dessas cenas parece ter relação com bancos centrais, reservas internacionais ou acordos entre presidentes do outro lado do planeta. Mas tem — e mais do que você imagina.

O trigo do pão pode ter sido comprado em dólar. O diesel do caminhão que trouxe as mercadorias até a sua cidade também é precificado, majoritariamente, em dólar. E o motivo de o dólar aparecer em quase tudo não é acidente nem lei da natureza: é o resultado de decisões geopolíticas tomadas há mais de oitenta anos, que ainda moldam o preço das coisas, moldam também o próprio espaço geográfico: onde se constroem estradas, portos, ferrovias e cidades inteiras.

Esta discussão é sobre um processo que os jornais chamam de desdolarização: a tentativa, gradual e ainda incompleta, de o mundo depender menos do dólar americano nas suas trocas comerciais e financeiras. E o ponto central que vamos explorar é este: quando a moeda muda, o território muda junto.


Pense Rápido 💭

Se um país decide comercializar em sua própria moeda em vez de usar o dólar, isso muda apenas uma planilha de banco ou pode mudar por onde passam os trens, os navios e as estradas de um continente? Guarde essa pergunta; vamos respondê-la.

1. A geopolítica do dinheiro: o que é, afinal, a desdolarização?

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o dólar americano ocupa uma posição que nenhuma outra moeda teve antes na história moderna: é a principal moeda de reserva dos bancos centrais, a unidade em que se cotam o petróleo, a soja e o minério de ferro, e o meio mais usado para liquidar pagamentos internacionais através do sistema Swift. Esse arranjo saiu da conferência de Bretton Woods, em 1944, e sobreviveu a décadas de mudanças no mundo.

Só que “sobreviver” não é o mesmo que “permanecer intacto”. Nos últimos anos, uma combinação de fatores tem levado países emergentes e blocos como o BRICS a buscar alternativas:

  • O uso do dólar como arma política. Sanções financeiras contra países como Rússia e Irã mostraram a outras nações que depender demais do dólar significa depender também da boa vontade de Washington.

  • A ascensão econômica da China, que hoje é o principal parceiro comercial de dezenas de países e quer que sua moeda, o yuan (ou renminbi), tenha papel equivalente ao seu peso econômico.

  • O comércio Sul-Sul em expansão, entre países da América Latina, África e Ásia, que muitas vezes não veem motivo para pagar uma “tarifa invisível” de conversão cambial pelo dólar quando poderiam negociar diretamente em moedas locais.

Não se trata de o dólar desaparecer amanhã — nenhum economista sério defende isso. Trata-se de uma erosão lenta e desigual de seu monopólio.

Você sabia? 📊

Segundo dados do FMI (COFER), a participação do dólar nas reservas internacionais caiu de cerca de 64,7% em 2016 para aproximadamente 57% em 2025.

Um exemplo concreto e didático: em maio de 2025, o Banco Central do Brasil fechou com o Banco Popular da China um acordo de swap cambial no valor equivalente a cerca de US$ 27,7 bilhões, permitindo trocar reais e yuans diretamente, sem passar pelo dólar.

A China é, há 17 anos consecutivos, a principal parceira comercial do Brasil: em 2025, o comércio bilateral ultrapassou US$ 170 bilhões, mais do que o dobro do volume negociado com os Estados Unidos.

Isso significa que, quando um produtor de soja do Mato Grosso vende sua safra para a China, o pagamento pode ser realizado em yuan e convertido diretamente em reais, reduzindo a dependência da moeda americana.

2. Da conta bancária ao território: como a moeda reorganiza o espaço físico

Durante décadas, o comércio internacional foi organizado em torno de rotas e infraestruturas pensadas para levar produtos até portos que embarcavam mercadorias rumo aos grandes centros financeiros do Atlântico Norte, Estados Unidos e Europa.

Ferrovias, rodovias e portos na América Latina, na África e em parte da Ásia foram historicamente desenhados como “canudos de sucção”: levar a matéria-prima do interior até a costa, e da costa para o mercado consumidor tradicional.

Quando o comércio muda de direção, porque agora a China, a Índia, os países do Golfo e outros parceiros do Sul Global ganham peso, o desenho do território também precisa mudar.

Não basta mudar a moeda do contrato; é preciso construir a estrada, o porto e a ferrovia que conectem fisicamente quem vai vender a quem vai comprar.

2.1 Novas rotas para não passar pelo “pedágio” financeiro tradicional

Pense assim: se um país da América do Sul quer vender diretamente para a Ásia, sem que sua mercadoria precise dar uma volta enorme por portos do Atlântico, ele precisa de uma ligação física com o Oceano Pacífico.

É exatamente isso que está em construção neste momento.

2.2 O campo e a cidade também mudam de forma

A reorganização não para nas fronteiras nacionais, ela entra na paisagem rural e urbana:

  • No campo, regiões antes consideradas “fim de linha” da logística nacional se transformam em nós logísticos estratégicos, atraindo silos, terminais de granéis, armazéns frigoríficos e polos de processamento.

  • Na cidade, municípios de fronteira ganham novos bairros, empregos em logística e construção civil, agências aduaneiras e crescimento urbano acelerado.

  • Na mineração e na indústria, países fornecedores de commodities passam a investir em portos e ferrovias dedicados a escoar minério e energia diretamente para parceiros asiáticos.

Figura 1 — Ponte Internacional sobre o Rio Paraguai

Pense Rápido 💭

Se uma nova rota logística passa a cortar uma pequena cidade de fronteira, o que muda além da estrada em si? Pense em emprego, preço de terrenos, chegada de novos moradores, pressão sobre escolas e serviços públicos e também em possíveis impactos ambientais sobre rios, matas e comunidades locais.

3. Estudo de Caso: o Corredor Bioceânico e o “Canal do Panamá Terrestre”

Vamos aterrissar a teoria em um exemplo real, que está acontecendo neste exato momento no seu continente.

O Corredor Rodoviário Bioceânico de Capricórnio é uma megaestrutura de integração que atravessa Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, ligando o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico por terra.

A imprensa já apelidou o projeto de “Canal do Panamá Terrestre”, porque ele oferece uma rota alternativa ao Canal do Panamá e ao Estreito de Magalhães para escoar produção sul-americana diretamente rumo à Ásia.

Mapa 2 — Traçado do Corredor Bioceânico de Capricórnio

Figura 3 — Alguns dados concretos da obra do Corredor Bioceânico de Capricórnio: extensão da Ponte Internacional Porto Murtinho–Carmelo Peralta, altura das torres estaiadas, investimento brasileiro, pavimentação da rodovia no Chaco e redução estimada no tempo de transporte.



Fonte: elaborado pelo autor com base em dados do Ministério dos Transportes do Brasil, Governo do Paraguai e informações oficiais do projeto do Corredor Bioceânico de Capricórnio (2025).

Note como esse projeto conecta diretamente os dois fios deste capítulo: de um lado, o comércio sul-americano cada vez mais voltado para a Ásia; de outro, uma transformação física e concreta do território (pontes, rodovias e portos) que só faz sentido porque a geografia comercial do mundo está mudando de eixo.

Estudo de Caso Complementar 🔎

Além do Corredor Bioceânico, vale observar o papel da China em investimentos de infraestrutura em portos e ferrovias na África e na Ásia Central, muitas vezes vinculados a acordos que favorecem pagamentos em yuan.

Pesquise um exemplo desses investimentos chineses fora da América do Sul e compare com o caso apresentado aqui: quais semelhanças e diferenças vocês encontram na forma como a infraestrutura acompanha a mudança monetária?

4. Box de Reflexão para debater

Para debater 🗣️

Um corredor logístico como o Bioceânico promete redução de custos, empregos e maior protagonismo para países do Sul Global no comércio mundial. Ao mesmo tempo, sua construção atravessa áreas ambientalmente sensíveis, como o Pantanal e o Chaco, e pode acelerar o crescimento desordenado de cidades pequenas de fronteira.

Como equilibrar integração econômica, soberania monetária e proteção ambiental e social nesses territórios? Quem deveria decidir os rumos desse tipo de projeto: apenas os governos nacionais, os organismos internacionais, ou também as comunidades locais diretamente afetadas?

5. Fechando o mapa: o que fica desta reflexão

Voltando à pergunta do início: o pão, o combustível, o preço das coisas na sua cidade. Agora fica mais claro por que eles importam para esta discussão.

Quando países decidem comercializar em suas próprias moedas em vez de depender do dólar, essa decisão não fica presa em uma sala de reunião de banco central. Ela se espalha pelo espaço: justifica a construção de uma ponte sobre um rio na fronteira, redesenha o uso do solo no campo, movimenta a economia de pequenas cidades e redireciona navios e caminhões para rotas que, há poucos anos, praticamente não existiam no mapa.

A desdolarização, portanto, não é apenas um capítulo de economia internacional escondido em números de reservas cambiais. É também um capítulo de Geografia Econômica em tempo real: um processo que está literalmente derramando concreto, abrindo estradas e recolocando países inteiros em posições diferentes dentro dos fluxos globais de comércio.

Da próxima vez que você passar por uma obra de infraestrutura na sua região, vale a pergunta: que rota ela está tentando criar e para qual novo mapa do mundo ela está, silenciosamente, contribuindo?

📚 Para continuar estudando

  • Compare os dados do FMI (COFER) sobre a composição das reservas internacionais ao longo dos últimos dez anos.

  • Pesquise o andamento atual das obras do Corredor Bioceânico e verifique se os prazos apresentados aqui já foram cumpridos.

  • Investigue outros corredores de integração Sul-Sul, como rotas ferroviárias na África Oriental ou projetos de infraestrutura energética entre países do Golfo Pérsico e a Ásia.


FONTES

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Banco Central e Banco Popular da China assinam acordo de swap cambial. Brasília, DF: Banco Central do Brasil, 2025. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/. Acesso em: 23 jul. 2026.

BRASIL. Ministério dos Transportes. Corredor Bioceânico: obras de integração entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile. Brasília, DF: Ministério dos Transportes, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/transportes/. Acesso em: 23 jul. 2026.

FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI). Currency Composition of Official Foreign Exchange Reserves (COFER). Washington, DC: International Monetary Fund, 2025. Disponível em: https://data.imf.org/COFER. Acesso em: 23 jul. 2026.

INTERNATIONAL MONETARY FUND. Annual Report 2025: navigating a changing global economy. Washington, DC: IMF, 2025. Disponível em: https://www.imf.org/. Acesso em: 23 jul. 2026.

ITAMARATY. Ministério das Relações Exteriores. Relações econômicas Brasil–China. Brasília, DF: Ministério das Relações Exteriores, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mre/. Acesso em: 23 jul. 2026.

PARAGUAI. Ministerio de Obras Públicas y Comunicaciones. Corredor Bioceánico: avances de infraestructura vial y puente internacional. Assunção: MOPC, 2025. Disponível em: https://www.mopc.gov.py/. Acesso em: 23 jul. 2026.

SECRETARIA DE COMÉRCIO EXTERIOR (SECEX). Estatísticas de comércio exterior: Brasil e China. Brasília, DF: Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/comercio-exterior. Acesso em: 23 jul. 2026.

SWIFT. Annual Review 2025. Bruxelas: Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication, 2025. Disponível em: https://www.swift.com/. Acesso em: 23 jul. 2026.



EXERCÍCIO

Desdolarização e a Nova Geografia Mundial

Questão 1

Texto I

"O trigo do pão pode ter sido comprado em dólar. O diesel do caminhão que trouxe as mercadorias até a sua cidade também é precificado, majoritariamente, em dólar. E o motivo de o dólar aparecer em quase tudo não é acidente nem lei da natureza: é o resultado de decisões geopolíticas tomadas há mais de oitenta anos..."


Texto II

"A partir de julho de 1944, delegados de 44 nações aliadas reuniram-se na estância de Bretton Woods para estruturar a ordem econômica do pós-guerra, institucionalizando a hegemonia de uma moeda lastreada no ouro e criando órgãos reguladores do fluxo financeiro global."

(VARGAS, H. História da Economia Global. São Paulo: Contexto, 2021).

A consolidação do dólar como padrão do comércio internacional, referenciada nos textos, desdobrou-se historicamente na criação de uma arquitetura geopolítica global que teve como impacto central:

A) a derrocada da divisão internacional do trabalho no bloco ocidental durante a Guerra Fria.

B) a neutralização das assimetrias de desenvolvimento entre os países do Norte e do Sul global.

C) a subordinação dos fluxos do comércio mundial a instituições e mecanismos sob influência estadunidense.

D) o estabelecimento da paridade cambial compulsória entre as moedas locais e as mercadorias primárias.

E) a descentralização do controle do crédito internacional para os bancos centrais dos países emergentes.

Questão 2

"Segundo dados do FMI (COFER), a participação do dólar nas reservas internacionais caiu de cerca de 64,7% em 2016 para aproximadamente 57% em 2025. [...] Em maio de 2025, o Banco Central do Brasil fechou com o Banco Popular da China um acordo de swap cambial no valor equivalente a cerca de US$ 27,7 bilhões, permitindo trocar reais e yuans diretamente..."


O movimento de erosão progressiva da hegemonia monetária do dólar por meio de arranjos bilaterais entre economias emergentes revela uma dinâmica geopolítica orientada para a:

A) superação do modo de produção capitalista no comércio transnacional.

B) diluição das fronteiras soberanas no controle das emissões monetárias regionais.

C) transição de uma ordem financeira unipolar para uma estrutura de multipolaridade relativa.

D) substituição definitiva das instituições multilaterais por blocos estritamente ideológicos.

E) eliminação do risco de volatilidade cambial nas exportações de produtos manufaturados.

Questão 3

"Ferrovias, rodovias e portos na América Latina, na África e em parte da Ásia foram historicamente desenhados como 'canudos de sucção': levar a matéria-prima do interior até a costa, e da costa para o mercado consumidor tradicional. Quando o comércio muda de direção [...] o desenho do território também precisa mudar."


A metáfora dos "canudos de sucção", utilizada para descrever as redes de transporte herdadas da divisão internacional do trabalho clássica, expressa a seguinte característica da organização espacial primário-exportadora:

A) Priorização da integração territorial interna em detrimento das conexões oceânicas.

B) Estruturação periférica e extrovertida do espaço, projetada para servir aos centros de consumo externos.

C) Uniformização do adensamento demográfico ao longo dos eixos intermodais de transporte.

D) Equilíbrio entre a oferta de infraestrutura de exportação e a logística do abastecimento interno.

E) Desconcentração das atividades industriais nas zonas costeiras de processamento de grãos.

Questão 4

"O Corredor Rodoviário Bioceânico de Capricórnio é uma megaestrutura de integração que atravessa Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, ligando o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico por terra. A imprensa já apelidou o projeto de 'Canal do Panamá Terrestre'..."


A implantação do Corredor Bioceânico reflete o reordenamento das redes de transporte na América do Sul. Sob a ótica da geografia econômica, essa grande obra de infraestrutura visa precipuamente:

A) reorientar os fluxos logísticos regionais em direção ao eixo asiático, contornando gargalos do comércio tradicional.

B) promover a autossuficiência energética dos países do Cone Sul pela substituição de combustíveis fósseis.

C) substituir os modais hidroviário e ferroviário pelo transporte rodoviário de alta tonelagem em todo o continente.

D) unificar as políticas tarifárias de importação de insumos tecnológicos no âmbito do Mercosul.

E) descentralizar as populações urbanas litorâneas em direção às zonas semiáridas do interior sul-americano.

Questão 5

"O uso do dólar como arma política. Sanções financeiras contra países como Rússia e Irã mostraram a outras nações que depender demais do dólar significa depender também da boa vontade de Washington."


A instrumentalização do sistema financeiro ocidental — a exemplo de restrições de acesso ao sistema de pagamentos SWIFT — atua como vetor de transformação geopolítica porque:

A) anula a soberania monetária das nações sancionadas ao confiscar permanentemente suas riquezas minerais.

B) estimula os países atingidos e seus parceiros a desenvolverem circuitos financeiros alternativos fora da influência do dólar.

C) invalida os acordos de livre comércio estabelecidos sob a égide da Organização Mundial do Comércio (OMC).

D) provoca a desvalorização imediata das commodities agrícolas nos mercados de cotação internacional.

E) obriga o retorno coercitivo ao padrão-ouro como única salvaguarda contra calotes operacionais.

Questão 6

"No campo, regiões antes consideradas 'fim de linha' da logística nacional se transformam em nós logísticos estratégicos, atraindo silos, terminais de granéis, armazéns frigoríficos e polos de processamento. Na cidade, municípios de fronteira ganham novos bairros, empregos em logística..."


A transformação territorial descrita no texto demonstra como a alteração das rotas do comércio global impacta a organização do espaço local mediante a:

A) erradicação das desigualdades socioeconômicas históricas nas áreas periféricas de fronteira.

B) alteração na hierarquia urbana e valorização seletiva do solo motivada por novas funções logísticas.

C) retração da especulação imobiliária decorrente da degradação ambiental nas áreas de passagem.

D) substituição das atividades agropastoris intensivas por parques de alta tecnologia da informação.

E) homogeneização da infraestrutura de serviços públicos nas aglomerações urbanas do interior.

Questão 7

Texto I

"A China é, há 17 anos consecutivos, a principal parceira comercial do Brasil: em 2025, o comércio bilateral ultrapassou US$ 170 bilhões — mais do que o dobro do volume negociado com os Estados Unidos."


Texto II

"O reprimarização da pauta exportadora sul-americana, associada à insaciável demanda de insumos pelas metrópoles asiáticas, consolida um modelo de especialização territorial baseado na extração e exportação de bens de baixo valor agregado."

(AQUINO, R. Geografia do Desenvolvimento. Rio de Janeiro: Bertrand, 2024).

A análise conjunta dos textos permite inferir que a forte atração comercial entre a China e o Brasil apresenta uma dualidade expressa por:

A) acenar para a independência financeira global, enquanto reitera uma inserção reprimarizada na divisão internacional do trabalho.

B) alavancar a industrialização de ponta no território nacional, reduzindo a dependência de investimentos externos em infraestrutura.

C) eliminar a vulnerabilidade do agronegócio às intempéries climáticas, assegurando preços fixos de commodities em moeda nacional.

D) equalizar a balança de pagamentos do setor secundário, contrabalançando a importação de bens de consumo de alta tecnologia.

E) enfraquecer os laços diplomáticos regionais no âmbito da América do Sul em favor de uma aliança militar transpacífica.

Questão 8

"Um corredor logístico como o Bioceânico promete redução de custos, empregos e maior protagonismo para países do Sul Global... Ao mesmo tempo, sua construção atravessa áreas ambientalmente sensíveis, como o Pantanal e o Chaco..."


A implantação de grandes obras infraestruturais em biomas frágeis como o Chaco e o Pantanal ilustra o conflito recorrente na produção do espaço geográfico contemporâneo entre:

A) a aceleração do tempo circulatório do capital e a preservação do equilíbrio ecológico e territorial local.

B) a necessidade de preservação da biodiversidade e a completa eliminação do modal rodoviário transcontinental.

C) a autonomia dos povos indígenas isolados e o avanço da urbanização exclusivamente turística.

D) o isolamento geográfico deliberado dos países andinos e a expansão do comércio intra-regional sul-americano.

E) a regulação ambiental sob tutela supranacional e a retração dos investimentos privados internacionais.

Questão 9

"A desdolarização [...] é também um capítulo de Geografia Econômica em tempo real: um processo que está literalmente derramando concreto, abrindo estradas e recolocando países inteiros em posições diferentes dentro dos fluxos globais de comércio."


Conforme a análise do excerto, o conceito geográfico que melhor traduz a relação entre as decisões financeiras abstratas e as suas materializações físicas no território é o de:

A) Região Natural.

B) Meio Técnico-Científico-Informacional.

C) Determinismo Geográfico.

D) Espaço Insular.

E) Desterritorialização Cultural.

Questão 10

"Na mineração e na indústria, países fornecedores de commodities passam a investir em portos e ferrovias dedicados a escoar minério e energia diretamente para parceiros asiáticos."


O direcionamento de investimentos estruturantes para infraestruturas dedicadas de exportação de recursos minerais e energéticos reorganiza o território das nações periféricas ao:

A) criar enclaves logísticos de elevada eficiência, por vezes desconectados das necessidades de integração do mercado interno.

B) assegurar o adensamento das cadeias produtivas locais por meio da transformação industrial obrigatória do minério antes do embarque.

C) extinguir os custos com frete marítimo, mediante o uso de redes de minerodutos integrados até os pontos de consumo final.

D) promover o desenvolvimento socioeconômico homogêneo de todas as regiões atravessadas pelas vias de escoamento.

E) descentralizar a gestão das empresas concessionárias para conselhos comunitários locais.

Gabarito Comentado

Questão 1

  • Gabarito: C

  • Competência de Área: 2 — Compreender as transformações dos espaços geográficos como produto das relações de produção e de poder.

  • Habilidade: H8 — Analisar a ação dos estados na organização socioespacial e nas relações internacionais.

  • Comentário: A Conferência de Bretton Woods (1944) estabeleceu o dólar como moeda padrão do comércio mundial e criou organismos como o FMI e o Banco Mundial. Essa estrutura garantiu aos Estados Unidos um papel central na regulação e subordinação das redes do comércio global.

Questão 2

  • Gabarito: C

  • Competência de Área: 2 — Compreender as transformações dos espaços geográficos como produto das relações de produção e de poder.

  • Habilidade: H9 — Comparar o significado histórico-geográfico das organizações político-econômicas no mundo contemporâneo.

  • Comentário: A redução percentual do dólar nas reservas cambiais e a adoção de moedas alternativas (como o yuan/renminbi) por blocos como o BRICS indicam uma transição da hegemonia absoluta estadunidense (unipolaridade) para um arranjo mais diversificado e multipolar nas finanças globais.

Questão 3

  • Gabarito: B

  • Competência de Área: 2 — Compreender as transformações dos espaços geográficos como produto das relações de produção e de poder.

  • Habilidade: H6 — Interpretar a atuação das sociedades na formação do espaço geográfico.

  • Comentário: O termo "canudos de sucção" descreve a infraestrutura colonial/neocolonial voltada unicamente para drenar riquezas do interior até os portos de exportação, gerando uma organização espacial extrovertida e desconectada das necessidades internas.

Questão 4

  • Gabarito: A

  • Competência de Área: 2 — Compreender as transformações dos espaços geográficos como produto das relações de produção e de poder.

  • Habilidade: H7 — Identificar os fatores que explicam a dimensão territorial das redes de transporte e comunicação.

  • Comentário: O Corredor Bioceânico visa conectar o centro produtivo sul-americano ao Oceano Pacífico (através do Chile), encurtando as distâncias e os custos de frete rumo aos mercados compradores da Ásia, contornando rotas tradicionais pelo Atlântico e pelo Canal do Panamá.

Questão 5

  • Gabarito: B

  • Competência de Área: 3 — Compreender a produção e o papel das instituições socioeconômicas e políticas na sociedade.

  • Habilidade: H11 — Identificar registros sobre as sociedades que se desenvolveram em diferentes tempos e espaços.

  • Comentário: Ao utilizar sanções e o bloqueio a sistemas como o SWIFT para coagir adversários geopolíticos, os EUA e aliados incentivam, inadvertidamente, que as nações sancionadas busquem alternativas independentes (ex.: CIPS chinês, SPFS russo e trocas em moedas locais), acelerando o processo de desdolarização.

Questão 6

  • Gabarito: B

  • Competência de Área: 2 — Compreender as transformações dos espaços geográficos como produto das relações de produção e de poder.

  • Habilidade: H8 — Analisar a ação dos estados na organização socioespacial.

  • Comentário: A conversão de cidades pacatas de fronteira em nós logísticos provoca reestruturação urbana, valorização especulativa da terra, atração de investimentos e alteração de sua posição na hierarquia urbana regional.

Questão 7

  • Gabarito: A

  • Competência de Área: 2 — Compreender as transformações dos espaços geográficos como produto das relações de produção e de poder.

  • Habilidade: H9 — Comparar o significado histórico-geográfico das organizações político-econômicas.

  • Comentário: A aliança comercial traz vantagens imediatas (redução de custos de transação e diversificação cambial com o uso do yuan/real), mas perpetua a vulnerabilidade estrutural da economia brasileira, focada na exportação de matérias-primas de menor valor agregado (soja, minério) em troca de manufaturados chineses.

Questão 8

  • Gabarito: A

  • Competência de Área: 6 — Compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas interações.

  • Habilidade: H28 — Relacionar o uso das tecnologias com os impactos socioambientais em diferentes contextos.

  • Comentário: Os corredores logísticos buscam acelerar o tempo de circulação das mercadorias para aumentar a lucratividade do capital, entrando em atrito direto com os tempos e limites de regeneração dos ecossistemas atravessados (Pantanal, Chaco) e a manutenção dos modos de vida locais.

Questão 9

  • Gabarito: B

  • Competência de Área: 2 — Compreender as transformações dos espaços geográficos.

  • Habilidade: H6 — Interpretar a atuação das sociedades na formação do espaço geográfico.

  • Comentário: O conceito de Meio Técnico-Científico-Informacional (proposto por Milton Santos) explica como a informação e a finança (fluxos imateriais) necessitam de fixos técnicos (portos, ferrovias, infovias) para se materializarem e operarem no território.

Questão 10

  • Gabarito: A

  • Competência de Área: 2 — Compreender as transformações dos espaços geográficos.

  • Habilidade: H7 — Identificar os fatores que explicam a dimensão territorial das redes.

  • Comentário: Infraestruturas dedicated (minerodutos, ferrovias privadas de uso exclusivo) funcionam como enclaves territoriais: servem quase que exclusivamente para retirar a commodity do território rumo ao exterior, sem articular ou dinamizar o tecido socioeconômico do entorno regional.

O PMRR como Pilar da Gestão Territorial e Redução de Desastres

  A gestão de riscos no Brasil viveu, por décadas, um paradigma prioritariamente reativo: esperava-se a tragédia acontecer para, então, mobi...