30 outubro 2026

NORUEGA, ESTADOS UNIDOS E BRASIL: DIFERENTES CAMINHOS DO CAPITALISMO, DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E DO BEM-ESTAR SOCIAL

INTRODUÇÃO

Noruega, Estados Unidos e Brasil são países capitalistas, mas organizaram suas economias e suas políticas sociais de maneiras diferentes. Compará-los ajuda a compreender que o capitalismo não funciona de uma única forma. As instituições, as escolhas políticas, a estrutura produtiva e a maneira como a riqueza é distribuída influenciam diretamente as condições de vida da população.

A Noruega combina uma economia de mercado com forte atuação do Estado, ampla proteção social e participação pública em setores considerados estratégicos. Os Estados Unidos dão maior centralidade à iniciativa privada e aos mecanismos de mercado, embora o governo tenha papel importante em áreas como pesquisa científica, defesa, infraestrutura e inovação. O Brasil também é uma economia capitalista com presença estatal relevante, mas enfrenta dificuldades históricas para transformar sua riqueza natural e seu mercado interno em desenvolvimento produtivo mais equilibrado e em redução duradoura das desigualdades.

A comparação não deve ser entendida como uma disputa simples para determinar qual país é melhor. Cada sociedade possui uma trajetória histórica própria. O objetivo é identificar como diferentes formas de organizar a economia produzem resultados distintos em termos de renda, proteção social, produtividade e distribuição de oportunidades.

1. A NORUEGA: ECONOMIA DE MERCADO, ESTADO FORTE E PROTEÇÃO SOCIAL

A Noruega é frequentemente associada ao chamado modelo nórdico de desenvolvimento. Esse modelo não corresponde a uma economia socialista em que o Estado controla toda a produção. Trata-se de uma economia capitalista, baseada na propriedade privada, na concorrência e no comércio internacional, mas na qual o Estado arrecada impostos, oferece serviços públicos abrangentes, regula atividades econômicas e participa de setores estratégicos.

A população norueguesa tem acesso a serviços públicos importantes, como educação, saúde e sistemas de proteção social. A tributação é relativamente elevada quando comparada à de muitos outros países, mas financia políticas que reduzem riscos sociais ao longo da vida. O Estado atua, portanto, não apenas como regulador da economia, mas também como provedor de serviços e instrumento de redistribuição de renda.

Um aspecto central da experiência norueguesa é a gestão das receitas provenientes do petróleo e do gás natural. A descoberta e a exploração desses recursos trouxeram uma fonte extraordinária de riqueza ao país. Em vez de direcionar toda essa receita para o consumo imediato, a Noruega desenvolveu mecanismos para poupar e investir parte significativa dos recursos.

O Fundo Global de Pensão do Governo, conhecido pela sigla GPFG, foi criado em 1990. Ele recebe recursos associados à atividade petrolífera e os investe principalmente em ativos financeiros no exterior. Dessa forma, uma parcela da riqueza gerada por recursos naturais finitos é convertida em patrimônio financeiro que pode beneficiar também as gerações futuras.

O fundo é um dos maiores fundos soberanos do mundo. Ao final de 2025, seu valor aproximava-se de 21,3 trilhões de coroas norueguesas. Esse patrimônio não deve ser confundido com dinheiro disponível livremente no orçamento anual. O fundo segue regras de investimento e uma orientação fiscal destinada a evitar que a economia dependa excessivamente das oscilações do preço do petróleo.

A política fiscal norueguesa considera, como referência de longo prazo, um retorno real esperado de aproximadamente 3% ao ano sobre o patrimônio do fundo. Isso não significa que o governo seja obrigado a gastar exatamente 3% em todos os anos. A regra funciona como orientação para o uso responsável da riqueza acumulada, levando em conta as condições econômicas e as necessidades do país.

O Estado também mantém participação acionária em empresas estratégicas. Um exemplo é a Equinor, companhia de energia na qual o governo norueguês possui aproximadamente 67% das ações. A participação estatal permite ao país exercer influência sobre decisões relevantes em um setor fundamental para sua economia.

A experiência norueguesa mostra que a existência de recursos naturais, por si só, não garante desenvolvimento. O resultado depende das instituições, da capacidade de planejamento, da transparência, da qualidade da administração pública e das decisões sobre como utilizar a renda obtida com esses recursos.

Um dos riscos enfrentados por países exportadores de petróleo e outros produtos primários é a chamada doença holandesa. Ela pode ocorrer quando a entrada de grandes receitas provenientes de um setor exportador valoriza a moeda nacional e desloca recursos, investimentos e trabalhadores para esse setor e para atividades não comercializáveis. Com isso, outros segmentos industriais podem perder competitividade. A gestão das receitas petrolíferas e os investimentos no exterior ajudam a Noruega a reduzir alguns desses riscos, embora não eliminem todos os desafios.

A Noruega também precisa enfrentar questões relacionadas à transição energética. Como sua prosperidade recente esteve ligada à exploração de petróleo e gás, o país precisa adaptar sua economia a um mundo que busca reduzir as emissões de gases de efeito estufa. O envelhecimento da população e o custo futuro dos sistemas de proteção social são outros desafios importantes.

2. OS ESTADOS UNIDOS: MERCADO, INOVAÇÃO E DESIGUALDADE

Os Estados Unidos representam uma forma de capitalismo em que a iniciativa privada, os mercados financeiros e a concorrência empresarial ocupam posição central. O país possui grandes empresas, mercados de capitais desenvolvidos e universidades e centros de pesquisa que contribuem para a inovação tecnológica.

Entretanto, seria incorreto afirmar que a economia norte-americana funciona sem participação do Estado. O governo federal financia pesquisas, realiza compras públicas, investe em defesa, apoia setores estratégicos e participa da construção de infraestrutura. Diversas tecnologias que posteriormente encontraram aplicações comerciais tiveram origem em pesquisas financiadas ou apoiadas pelo setor público.

A relação entre Estado e mercado nos Estados Unidos é, portanto, mais complexa do que a ideia de um Estado ausente. Em diferentes momentos, políticas públicas contribuíram para o desenvolvimento de setores como a indústria aeroespacial, a informática, a internet e a indústria de defesa. O setor privado costuma desempenhar papel decisivo na comercialização e na expansão dessas inovações.

Uma diferença importante em relação à Noruega está na organização da proteção social. Nos Estados Unidos, o acesso a determinados serviços, especialmente à saúde, depende em maior medida de seguros privados, vínculos de emprego e programas públicos específicos. Isso faz com que a renda e a posição ocupacional tenham grande influência sobre a segurança econômica das famílias.

O país apresenta elevada capacidade de inovação e produtividade em diversos setores, mas também convive com desigualdades significativas. A concentração de renda e patrimônio, as diferenças regionais e o acesso desigual à educação e à saúde mostram que uma economia rica e tecnologicamente avançada não distribui automaticamente seus benefícios de maneira equilibrada.

Assim, a comparação com a Noruega permite perceber que crescimento econômico, inovação e bem-estar social são dimensões relacionadas, mas não idênticas. Uma sociedade pode apresentar empresas altamente competitivas e grande produção de riqueza sem oferecer o mesmo nível de proteção social a todos os seus habitantes.

3. O BRASIL: RIQUEZA NATURAL, DESIGUALDADE E DESAFIOS PRODUTIVOS

O Brasil possui grande disponibilidade de recursos naturais, um mercado consumidor expressivo, uma base industrial diversificada e instituições públicas com capacidade de atuação econômica. O país produz e exporta petróleo, minério de ferro, soja, carnes, celulose e outros produtos importantes. Também possui empresas e centros de pesquisa que atuam em áreas como energia, agricultura, aeronáutica e exploração em águas profundas.

Apesar dessas vantagens, o Brasil enfrenta dificuldades para sustentar um processo de desenvolvimento que combine aumento da produtividade, diversificação produtiva e redução das desigualdades. A exportação de produtos primários pode gerar divisas e receitas públicas, mas não garante, por si só, a criação de empregos qualificados, o domínio tecnológico ou a expansão de atividades industriais de maior valor agregado.

Um conceito importante para compreender esse desafio é o de reprimarização da pauta exportadora. A expressão descreve o aumento da participação relativa de produtos primários ou de baixo processamento nas exportações de um país. Isso não significa que toda atividade baseada em recursos naturais seja negativa. A questão central é saber se esses setores estimulam cadeias produtivas, pesquisa, inovação, fornecedores nacionais e empregos qualificados, ou se permanecem pouco conectados ao restante da economia.

O Brasil também apresenta uma estrutura produtiva heterogênea. Isso significa que setores altamente modernos e produtivos convivem com atividades de baixa produtividade, informalidade e reduzido acesso à tecnologia. Essa diferença aparece entre regiões, empresas, trabalhadores e setores econômicos. O resultado é uma economia em que os ganhos de produtividade não se espalham de maneira uniforme pela sociedade.

Pensadores como Celso Furtado e autores ligados à tradição estruturalista latino-americana, como Aníbal Pinto e Raúl Prebisch, chamaram a atenção para os obstáculos históricos ao desenvolvimento das economias periféricas. Entre esses obstáculos estão a dependência tecnológica, a especialização produtiva, a desigualdade social e a dificuldade de construir uma estrutura econômica capaz de gerar inovação e crescimento sustentado.

O Estado brasileiro possui instrumentos para influenciar a trajetória econômica. A Petrobras, os bancos públicos, as políticas de conteúdo local, os investimentos em infraestrutura, os royalties e os regimes de exploração do petróleo são exemplos de mecanismos que podem ser utilizados para ampliar os efeitos positivos dos recursos naturais sobre a economia. O país também possui o Fundo Social do Pré-Sal, concebido para receber parte das receitas relacionadas à exploração petrolífera e apoiar áreas definidas em lei.

A existência desses instrumentos, porém, não garante resultados. É necessário avaliar como os recursos são administrados, quais objetivos orientam os investimentos, se há transparência e se as políticas contribuem para ampliar a capacidade produtiva nacional. A questão não é simplesmente escolher entre Estado e mercado, mas construir formas eficientes de coordenação entre os dois.

O desafio brasileiro consiste em transformar vantagens naturais e econômicas em desenvolvimento de longo prazo. Isso exige investimento em educação, ciência, tecnologia, infraestrutura, qualificação profissional e diversificação produtiva. Exige também políticas capazes de reduzir desigualdades e ampliar as oportunidades para a população.

4. COMPARANDO ALGUNS INDICADORES

Os indicadores ajudam a visualizar diferenças entre os países, mas precisam ser interpretados com cuidado. Os valores abaixo são arredondados e correspondem a anos de referência distintos, conforme a disponibilidade das bases estatísticas. Eles não devem ser tratados como uma fotografia perfeitamente simultânea.

Indicador: PIB per capita, em paridade do poder de compra, dólares internacionais constantes de 2021, 2024.
Noruega: aproximadamente US$ 91.105.
Estados Unidos: aproximadamente US$ 75.489.
Brasil: aproximadamente US$ 19.652.

Indicador: Índice de Gini, em escala de 0 a 100, em que valores maiores indicam maior desigualdade.
Noruega: aproximadamente 26,5, em 2023.
Estados Unidos: aproximadamente 41,8, em 2024.
Brasil: aproximadamente 50,3, em 2024.

Indicador: Carga tributária em proporção do PIB, 2024.
Noruega: aproximadamente 40,2%.
Estados Unidos: aproximadamente 25,6%.
Brasil: aproximadamente 33,7%.

O PIB per capita ajustado pela paridade do poder de compra permite comparar, de maneira aproximada, o nível médio de produção ou renda por habitante considerando diferenças no custo de vida entre países. Ele não informa como a renda está distribuída. Por isso, deve ser analisado em conjunto com indicadores de desigualdade e de acesso a serviços.

O Índice de Gini mede a desigualdade na distribuição de renda. Em uma escala de 0 a 100, valores mais baixos indicam uma distribuição mais igualitária. Os dados apresentados sugerem desigualdade menor na Noruega e maior no Brasil, com os Estados Unidos em posição intermediária. Como os anos e as metodologias podem variar, a comparação deve ser entendida como indicativa.

A carga tributária representa a arrecadação de tributos em relação ao tamanho da economia. Uma carga elevada não significa automaticamente que os serviços públicos sejam bons, assim como uma carga menor não significa necessariamente maior eficiência. É importante observar como os tributos são cobrados, quem suporta maior parte do peso tributário e como os recursos são aplicados.

A comparação mostra que a Noruega combina renda média elevada, menor desigualdade e carga tributária relativamente alta. Os Estados Unidos apresentam renda média elevada, mas desigualdade maior e carga tributária menor. O Brasil possui renda média bastante inferior e desigualdade elevada, embora sua carga tributária seja expressiva quando comparada à de outros países de renda média.

5. O QUE O BRASIL PODE APRENDER COM ESSAS EXPERIÊNCIAS?

A experiência norueguesa não pode ser simplesmente copiada pelo Brasil. Os países têm populações, histórias, estruturas econômicas e condições institucionais muito diferentes. Ainda assim, alguns princípios podem inspirar políticas públicas brasileiras.

O primeiro é o planejamento de longo prazo. Recursos naturais são finitos e seus preços variam no mercado internacional. Por isso, receitas extraordinárias não deveriam ser tratadas como dinheiro permanente para financiar despesas correntes. É importante construir mecanismos transparentes de poupança, investimento e estabilização.

O segundo princípio é ampliar o conteúdo tecnológico da produção. Exportar petróleo, minério ou produtos agrícolas pode ser importante, mas o país também precisa desenvolver máquinas, equipamentos, serviços especializados, pesquisa e conhecimento associados a essas atividades. O objetivo é construir cadeias produtivas capazes de gerar mais valor dentro do país.

O terceiro é distribuir de maneira mais ampla os benefícios do crescimento. Educação de qualidade, saúde, saneamento, transporte, habitação e proteção social não são apenas despesas. Também contribuem para ampliar as capacidades da população e criar condições para uma economia mais produtiva.

O quarto é fortalecer a coordenação entre Estado e iniciativa privada. O Estado pode estabelecer objetivos, financiar pesquisa, construir infraestrutura e reduzir incertezas. Empresas podem desenvolver produtos, organizar processos produtivos e ampliar mercados. Para que essa relação funcione, são necessárias instituições confiáveis, regras estáveis, avaliação de resultados e controle social.

Por fim, o desenvolvimento precisa considerar os limites ambientais. A exploração de recursos naturais deve levar em conta os impactos sobre os ecossistemas, as comunidades e as gerações futuras. A transição energética pode representar um desafio, mas também abre oportunidades para novos setores produtivos, tecnologias e empregos.

CONCLUSÃO

Noruega, Estados Unidos e Brasil demonstram que existem diferentes formas de organizar o capitalismo. A Noruega combina mercados competitivos com forte proteção social, planejamento e gestão de parte da riqueza petrolífera por meio de um fundo soberano. Os Estados Unidos destacam-se pela força da iniciativa privada e pela inovação, mas apresentam desigualdades importantes e uma proteção social organizada de maneira diferente. O Brasil possui recursos naturais, mercado interno e instrumentos estatais relevantes, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar essas vantagens em produtividade elevada, diversificação econômica e redução consistente das desigualdades.

A principal lição é que recursos naturais, crescimento econômico e desenvolvimento social não são a mesma coisa. A riqueza de um país depende também de suas instituições, de suas escolhas políticas e de sua capacidade de transformar recursos em conhecimento, oportunidades e bem-estar. O desenvolvimento não resulta automaticamente da abundância de recursos ou da liberdade dos mercados. Ele exige planejamento, capacidade produtiva, políticas públicas consistentes e participação social.

GLOSSÁRIO

Estado de Bem-Estar Social: forma de organização em que o Estado assume responsabilidade relevante pela oferta de serviços e pela proteção da população contra riscos como doença, desemprego, pobreza e velhice.

Capitalismo de Estado: situação em que o Estado participa diretamente de atividades econômicas, controla empresas ou orienta investimentos em setores considerados estratégicos, sem que isso necessariamente elimine a propriedade privada ou os mercados.

Social-democracia: tradição política que procura combinar economia de mercado, democracia representativa, direitos sociais, serviços públicos e políticas de redução das desigualdades.

Fundo soberano: fundo de investimento pertencente a um Estado, geralmente formado por receitas de recursos naturais, reservas internacionais ou excedentes fiscais, com objetivos de poupança, estabilização ou investimento de longo prazo.

Doença holandesa: processo pelo qual a entrada elevada de receitas de um setor exportador, como petróleo ou mineração, pode valorizar a moeda e prejudicar a competitividade de outros setores, especialmente da indústria.

Commodities: produtos básicos, geralmente padronizados e negociados em mercados internacionais, como petróleo, minério de ferro, soja, milho e café.

Reprimarização: aumento da participação de produtos primários ou pouco processados na estrutura produtiva ou nas exportações de um país.

Heterogeneidade estrutural: coexistência de setores e empresas com níveis muito diferentes de produtividade, tecnologia, renda e condições de trabalho dentro da mesma economia.

Economia periférica: conceito utilizado por correntes do pensamento econômico para caracterizar países cuja inserção na economia mundial tende a envolver dependência tecnológica, especialização produtiva e menor poder de decisão sobre determinados fluxos econômicos.

Renda petrolífera: receita obtida com a exploração e comercialização de petróleo, incluindo tributos, royalties, participações governamentais e resultados de empresas estatais ou privadas.

Paridade do Poder de Compra (PPC): método de comparação econômica que considera diferenças no nível de preços entre países, permitindo estimar quanto uma determinada quantia pode comprar em cada economia.

Índice de Gini: indicador estatístico utilizado para medir a desigualdade de renda ou de outra variável. Quanto mais próximo de zero, mais igualitária é a distribuição; quanto mais próximo de 100, maior é a desigualdade, na escala apresentada neste texto.

Carga tributária: total de tributos arrecadados em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), geralmente expresso em porcentagem.

Desenvolvimento endógeno: processo de desenvolvimento que valoriza capacidades internas de uma região ou país, como conhecimento, instituições, recursos humanos, empresas e inovação, sem ignorar as relações com a economia internacional.

Centro-periferia: abordagem que analisa as relações desiguais entre economias mais industrializadas e tecnologicamente avançadas e economias com maior dependência de produtos primários e tecnologia externa.

REFERÊNCIAS PARA APROFUNDAMENTO

BANCO MUNDIAL. World Development Indicators. Base internacional de indicadores econômicos e sociais. Disponível em: https://databank.worldbank.org/source/world-development-indicators

FUNDO GLOBAL DE PENSÃO DO GOVERNO DA NORUEGA. Informações sobre estratégia, patrimônio e investimentos. Disponível em: https://www.nbim.no/

OCDE. Revenue Statistics. Estatísticas comparáveis sobre arrecadação tributária. Disponível em: https://www.oecd.org/tax/tax-policy/revenue-statistics.htm

FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1959.

PREBISCH, Raúl. O desenvolvimento econômico da América Latina e alguns de seus problemas principais. 1949.

CHANG, Ha-Joon. Chutando a escada: a estratégia do desenvolvimento em perspectiva histórica. São Paulo: Editora Unesp, 2004.

WALLERSTEIN, Immanuel. The Modern World-System. New York: Academic Press, 1974





OBSERVAÇÃO SOBRE OS DADOS: Os números apresentados são valores aproximados e devem ser conferidos nas bases originais antes de serem utilizados em trabalhos acadêmicos, avaliações ou publicações. Indicadores internacionais podem sofrer revisões e utilizar conceitos, anos de referência e metodologias diferentes. O PIB per capita não representa a renda efetivamente recebida por cada pessoa, e a carga tributária, isoladamente, não mede a qualidade dos serviços públicos.

07 outubro 2026

O mito da eficiência e a miragem do "aluno-mercado": o que o neoliberalismo fez com a nossa escola pública?

 

O mito da eficiência e a miragem do "aluno-mercado": o que o neoliberalismo fez com a nossa escola pública?



A lógica de mercado não pede licença. Ela entra pelas portas das escolas públicas travestida de palavras bonitas: inovação, empreendedorismo, produtividade, meritocracia. Sob o pretexto de modernizar a formação humana no ensino básico, a racionalidade neoliberal transformou o ambiente escolar em uma engrenagem fria de moer gente, onde o conhecimento crítico dá lugar ao adestramento técnico, à padronização curricular e à meta quantitativa.

Vendem-nos a ideia do estudante como uma "empresa de si mesmo" desde a infância e a juventude. Nesse cenário, o aluno da escola pública deixa de ser um sujeito histórico em formação para se tornar um cliente ou um ativo financeiro em busca de capital humano para o mercado de trabalho. A aprendizagem é esvaziada de seu sentido social e comunitário, sendo reduzida a competências operacionais e habilidades comportamentais imediatamente utilizáveis pelas corporações. Não se ensina mais a questionar as estruturas, as desigualdades regionais ou as contradições do espaço urbano; ensina-se a performar, a competir e a se adaptar passivamente às exigências da produção contemporânea.

Nas redes públicas de ensino básico, essa lógica se desdobra em uma precarização sistemática do trabalho pedagógico. Professores da educação básica, sufocados por rotinas burocráticas, falta de infraestrutura e avaliações externas baseadas puramente em métricas de rendimento, viram meros executores de pacotes educacionais prontos. O saber escolar e o pensamento crítico passam a ser julgados não pelo seu impacto emancipatório na comunidade ou pelo desenvolvimento da cidadania, mas pelo seu potencial de adestramento e adequação dos jovens às demandas imediatas do empresariado.

O resultado dessa conta não poderia ser outro: o adoecimento coletivo dos profissionais da educação, o desestímulo dos estudantes, o esvaziamento do debate social e a naturalização das vulnerabilidades da periferia. Quando a gestão escolar pública é guiada como um balcão de negócios, a desigualdade socioeconômica deixa de ser um problema estrutural a ser superado e passa a ser tratada como um simples fracasso individual do aluno que "não se esforçou o suficiente".

Até quando aceitaremos que o destino das futuras gerações das nossas redes públicas seja traçado por planilhas de metas, testes padronizados e cartilhas corporativas? A escola pública não existe para servir ao mercado; ela existe para humanizar o mundo, compreender o espaço vivenciado e libertar o pensamento. Se a sala de aula abdica do seu papel provocador e contestador, ela deixa de formar cidadãos conscientes da sua realidade e passa a fabricar apenas peças de reposição para o sistema produtivo.

28 setembro 2026

A Evolução Social do Brasil (1975–2025): Uma Leitura Além da Polarização


Ao olhar para o retrovisor das últimas cinco décadas, a economia brasileira revela uma transformação estrutural profunda na forma como a renda se distribui entre a população. Longe de narrativas partidárias ou discursos ufanistas, um levantamento consolidado pelo projeto Brasil em Mapas, utilizando bases oficiais do IBGE, Banco Mundial e FGV Social, expõe os altos e baixos da mobilidade social no país entre 1975 e 2025.

​O retrato de longo prazo: Menos pobreza, mais classe média

​Em meados da década de 1970, o Brasil enfrentava um cenário de pobreza estrutural severa, que atingia cerca de 69% da população. O contingente inserido no que se convencionou chamar de classe média (faixa da Classe C, segundo parâmetros da FGV Social) não passava de 28%.

​Cinco décadas depois, o panorama desenha uma inversão expressiva: a pobreza recuou para patamares estimados em 21% em 2025, enquanto a classe média passou a abranger 61,5% dos brasileiros. Esse movimento demonstra que, em termos macroeconômicos, o país ampliou consideravelmente o acesso ao consumo e à renda básica ao longo das gerações.

​O fator cíclico: Avanços e reversões

​A trajetória, no entanto, nunca foi linear. Os dados evidenciam que a mobilidade social caminha de mãos dadas com a estabilidade econômica, a inflação e o mercado de trabalho:

  • ​Aceleração (2003–2014): O período foi marcado por forte expansão do emprego formal, valorização real do salário mínimo e ampliação de programas de transferência de renda, resultando em quedas sucessivas na pobreza e forte migração para a classe média.
  • ​Retração e Crise (2015–2022): A sequência de crises econômicas, agravada globalmente pela pandemia de COVID-19, provocou uma reversão parcial desses indicadores. O pico da pobreza na década recente foi registrado em 2021, quando atingiu 36,8% da população, antes de retomar a trajetória de queda.
  • ​Recuperação Recente (2023–2025): Impulsionada pela recuperação do mercado de trabalho e novos ciclos de programas sociais, a taxa de pobreza voltou a encolher de forma acelerada nos últimos anos.

​Conclusão: O desafio estrutural remanescente

​Os números mostram que o Brasil é hoje um país substancialmente menos empobrecido do que na era industrial do século passado. Contudo, analistas ponderam que o crescimento da Classe C, embora reflita importante mobilidade social, não elimina por si só a vulnerabilidade econômica e a alta desigualdade de riqueza que ainda caracterizam o topo e a base da pirâmide brasileira. O desafio para os próximos anos permanece sendo consolidar o crescimento econômico com bases sustentáveis, blindando a população contra choques inflacionários e instabilidades globais.

27 setembro 2026

Fé, Poder e Autoritarismo: O que é a Teologia do Domínio e sua Relação com a Extrema Direita

Ao ligarmos o noticiário político internacional ou nacional, é cada vez mais comum depararmo-nos com bandeiras religiosas, discursos apocalípticos e líderes políticos que se apresentam não apenas como governantes, mas como figuras ungidas por Deus. Esse fenômeno não é um acidente histórico, mas o reflexo da expansão de uma corrente ideológica e teológica conhecida como Teologia do Domínio. Compreender o que ela significa, como se conecta com a ascensão da extrema direita global e de que maneira repete velhos padrões ditatoriais da história humana é essencial para quem defende a democracia e o Estado laico.

Em termos conceituais, a Teologia do Domínio, muitas vezes associada ao dominionismo, é um conjunto de correntes com raízes no protestantismo conservador norte-americano e ramificações em outras esferas religiosas. Ela interpreta o famoso texto bíblico do Gênesis sobre ter domínio sobre a criação não como um chamado ao cuidado ecológico ou à gestão ética, mas como um mandato político estrito. De acordo com essa visão, os grupos que detêm a interpretação correta da fé teriam o dever divino de conquistar e submeter as instituições civis, incluindo o governo, a justiça, a educação, a mídia, a cultura e a economia. Em vez de separar a fé da esfera pública, o dominionismo prega que as leis civis devem ser subordinadas a preceitos religiosos, transformando crença espiritual em um projeto explícito de poder terreno.

Nas últimas décadas, essa teologia deixou os compêndios marginais para funcionar como a argamassa ideológica da extrema direita contemporânea em várias partes do mundo. Essa aliança se sustenta em pilares estratégicos muito claros, a começar pela lógica do "nós contra eles", onde a política deixa de ser um debate republicano e passa a ser tratada como uma batalha espiritual, transformando o adversário político em um agente do mal. Outro pilar é o mito do líder ungido, que faz com que líderes populistas de extrema direita, mesmo com biografias distantes da moral religiosa tradicional, sejam vistos como salvadores cujos excessos são perdoados em nome de sua missão restauradora. Completa esse cenário o revisionismo nacionalista, que promove a ideia de que o país era originalmente uma nação cristã corrompida por forças seculares ou minorias, justificando medidas de exceção.

A instrumentalização da religião para fins de controle político não é novidade, pois a história demonstra que o cruzamento entre o altar e o trono sempre gerou regimes de opressão. O uso da religião como ferramenta de domesticação social e legitimação de tiranias é uma das táticas mais antigas do poder autoritário. Durante séculos, monarquias absolutistas justificaram abusos alegando responder apenas a Deus, tornando a contestação política um pecado passível de punição. Da mesma forma, o fascismo e o nazismo na Europa buscaram legitimação junto às igrejas tradicionais para anestesiar o pensamento crítico das massas, enquanto teocracias modernas mostram o ápice desse projeto ao fundirem lei civil e religiosa para erradicar liberdades individuais.

O perigo central da Teologia do Domínio e sua simbiose com a extrema direita reside na destruição da pluralidade democrática. Uma democracia saudável exige tolerância, alternância de poder e a premissa de que nenhuma visão de mundo pode se impor de forma absoluta sobre os demais cidadãos. Quando a política é vestida com mantos sagrados, o debate racional morre, o dissenso passa a ser considerado heresia e o autoritarismo ganha o aval de fiéis que acreditam lutar pelo bem, mas que acabam servindo a projetos de dominação terrena e exclusão social. Estar atento a esses discursos é o primeiro passo para defender a liberdade de crença e a integridade das instituições democráticas.

O que você tem observado sobre o avanço desse discurso religioso na política do nosso país? Deixe sua opinião nos comentários!




25 setembro 2026

Meio ambiente: para além da reciclagem e dos projetos pedagógicos, uma análise crítica


Final do ano letivo chegando e, com ele, a gincana de reciclagem na escola do bairro. Crianças separam garrafas PET, tampinhas coloridas se acumulam em potes de vidro, um mural anuncia a "Semana do Meio Ambiente". No mercado, a sacola retornável, comprada por dois reais no caixa, descansa no carrinho como um pequeno troféu de consciência. Nas redes sociais, o apelo se repete: "faça a sua parte", "pequenas atitudes fazem a diferença", "o planeta agradece".

Não há nada de errado nesses gestos, tomados isoladamente. O problema está no que eles deixam de fora.

Essas práticas (a reciclagem doméstica, a redução do consumo de plástico individual, os projetos escolares pontuais) cumprem um papel real, mas parcial: são portas de entrada para uma sensibilidade ecológica. O risco aparece quando se tornam o teto, e não o piso, do debate ambiental. Quando a "consciência individual" é apresentada como resposta suficiente a uma crise que é, em sua origem e em sua escala, estrutural, sistêmica e política, ela deixa de ser educação e passa a funcionar como cortina de fumaça: um véu que desloca o olhar do consumidor para longe das chaminés, das planilhas de lucro e das decisões regulatórias que de fato moldam o destino do planeta.

A ilusão da reciclagem

Há uma história pouco contada por trás do símbolo das três setas verdes que persegue embalagens ao redor do mundo. Nos anos 1970, diante da pressão crescente por regulação sobre resíduos plásticos nos Estados Unidos, a indústria petroquímica (a mesma que produz a matéria-prima do plástico) financiou campanhas robustas para popularizar a ideia de que o problema do lixo poderia ser resolvido pelo comportamento do consumidor. A campanha "Keep America Beautiful", das décadas de 1950 a 1970, é um marco desse deslocamento: ela transformou a poluição, antes associada à produção industrial, em uma questão de pessoas que jogavam lixo na rua.

O resultado é uma lógica que se mantém até hoje. A responsabilidade pelo destino de um material que nunca foi verdadeiramente projetado para ser reciclado (grande parte do plástico produzido no mundo tem taxa real de reciclagem muito baixa, por razões técnicas e econômicas) recai sobre quem o descarta, não sobre quem decide fabricá-lo daquela forma, naquele volume, com aquela composição química.

Esse mecanismo tem nome: greenwashing, a maquiagem verde que empresas aplicam sobre práticas que, em sua essência, permanecem predatórias. Não é só propaganda enganosa pontual. É uma estratégia estrutural de transferência de ônus. Ao investir pesadamente em campanhas que celebram a separação do lixo pelo cidadão comum, corporações do setor de embalagens, energia e agronegócio deslocam o centro do debate: em vez de perguntarmos por que uma empresa produz bilhões de embalagens descartáveis por ano, perguntamos se o cidadão separou corretamente o lixo orgânico do reciclável.

Isso não significa que reciclar seja inútil. Significa que reciclar, sozinho, é insuficiente para alterar a trajetória de uma crise cujas causas estão na escala da produção industrial, da matriz energética e dos modelos de negócio extrativistas. Colocar o peso moral dessa transformação nas costas do indivíduo é, ao mesmo tempo, injusto e estrategicamente conveniente para quem não quer ser regulado.

A crítica aos projetos pedagógicos tradicionais

A escola, historicamente, absorveu essa mesma lógica fragmentada. Educação ambiental, em muitas instituições, ainda se resume a um conjunto de rituais recorrentes: plantar uma muda no pátio, montar um vaso com garrafa PET cortada, desenhar um cartaz com a Terra sorridente e o slogan "cuide do planeta". São atividades sensorialmente agradáveis, fotogênicas para o mural da escola, e raramente acompanhadas de uma pergunta mais incômoda: por que certos territórios recebem lixo, poluição e risco ambiental, enquanto outros não?

Essa pergunta leva a um conceito frequentemente ausente das salas de aula: o racismo ambiental. Trata-se do padrão, documentado em pesquisas ao redor do mundo, inclusive no Brasil, com estudos sobre bairros periféricos, comunidades quilombolas e territórios indígenas, segundo o qual populações negras, indígenas e de baixa renda são desproporcionalmente expostas a aterros sanitários, indústrias poluentes, enchentes e falta de saneamento básico. Não é acidente geográfico. É resultado de decisões históricas de planejamento urbano, especulação imobiliária e ausência de representação política dessas comunidades nos espaços de decisão.

Uma educação ambiental que ensina a separar o lixo, mas não discute por que certos bairros vivem debaixo de linhas de transmissão ou ao lado de lixões, produz um tipo peculiar de cidadão: engajado esteticamente, mas desarmado conceitualmente. Sabe reciclar uma garrafa, mas não sabe nomear a desigualdade socioespacial que faz da crise climática uma crise também de classe e de raça. Os primeiros a sofrer os efeitos de secas, enchentes e ondas de calor são quase sempre os que menos contribuíram historicamente para o problema.

Da mesma forma, poucos projetos escolares tocam no modelo de consumo desenfreado como questão estrutural: a obsolescência programada, o incentivo publicitário ao descarte constante, a lógica de crescimento infinito em um planeta finito. Fala-se em "consumir menos" como escolha pessoal, mas raramente se discute o sistema econômico que depende do consumo crescente para se sustentar, e que investe bilhões para estimular exatamente o comportamento que depois pede ao indivíduo para conter.

Isso não é um convite ao desespero ou ao cinismo diante da escola. É um convite à ampliação: da atividade artesanal pontual para a formação de um pensamento crítico contínuo, capaz de conectar o vaso de garrafa PET à cadeia de decisões que fez daquele plástico um objeto descartável em primeiro lugar.

O horizonte necessário

Se a reciclagem e os projetos pedagógicos tradicionais são o ponto de partida, qual é o horizonte?


É a construção de uma cidadania ecológica e política, que não se encerra na porta de casa nem nos muros da escola, mas se estende à esfera pública, onde as decisões que realmente definem a trajetória climática do planeta são tomadas.


Isso significa, em primeiro lugar, entender a diferença entre justiça ambiental e caridade ambiental. Não basta distribuir mudas ou promover mutirões de limpeza em rios poluídos, se as comunidades ribeirinhas continuam sem poder de decisão sobre o que é despejado rio acima. Justiça climática significa reconhecer que os países e populações que menos emitiram gases de efeito estufa historicamente são, com frequência, os mais atingidos por secas, enchentes e deslocamentos forçados, e que qualquer solução real precisa incluir mecanismos de reparação e adaptação para essas populações, não apenas mitigação genérica.


Em segundo lugar, significa deslocar o foco da ação individual para a regulação industrial e a incidência política. Cobrar de uma empresa que reduza emissões, que se responsabilize pelo ciclo de vida completo de seus produtos, que pare de desmatar para expandir monocultura, tem impacto de ordem de grandeza muito superior à troca de um copo descartável por um copo reutilizável, ainda que uma ação não exclua a outra. Participar de audiências públicas sobre licenciamento ambiental, apoiar organizações de incidência climática, cobrar de representantes eleitos políticas de transição energética justa, entender e discutir tratados internacionais sobre clima: esses são atos de cidadania que operam na escala em que o problema realmente existe.


Em terceiro lugar, significa reconhecer o voto, a organização coletiva e a pressão social como ferramentas ambientais tão legítimas, e mais eficazes na escala necessária, quanto a separação do lixo doméstico. Movimentos sociais, sindicatos, coletivos de bairro e articulações indígenas têm historicamente conquistado mais proteção ambiental por meio de mobilização e disputa política do que por apelos ao consumo consciente.


Conclusão: da indignação à pressão estrutural


A proposta aqui não é abandonar a sacola retornável, nem esvaziar de sentido a gincana escolar de reciclagem. A proposta é recusar que esses gestos sejam o ponto final do nosso engajamento ambiental, quando deveriam ser apenas sua porta de entrada.


A crise climática e ambiental que vivemos não será resolvida por bilhões de decisões individuais isoladas, por mais bem-intencionadas que sejam. Ela exige mudança de escala: nas matrizes energéticas, nos modelos de produção, nas legislações de proteção territorial, nos mecanismos de responsabilização corporativa. Exige uma educação que não tenha medo de nomear o racismo ambiental, a desigualdade socioespacial e os interesses econômicos que sustentam a inação climática, mesmo que isso seja mais desconfortável do que montar um vaso de garrafa PET.


O convite final, então, é este: que a indignação legítima diante da crise ambiental, que já habita tantas salas de aula, tantas rodas de conversa, tantos corações inquietos, deixe de se dissolver em gestos simbólicos isolados e se converta em pressão organizada, sustentada e política. Que a mesma energia usada para separar o lixo seja também usada para cobrar, fiscalizar, votar, organizar e exigir. O planeta não precisa apenas de cidadãos mais conscientes. Precisa, sobretudo, de cidadãos mais incisivos, dispostos a disputar, coletivamente, o poder de decidir seu próprio futuro.

15 setembro 2026

“Se a tecnologia não serve para emancipar, proteger e dignificar a vida humana, ela passa a servir apenas como ferramenta de alienação e concentração de poder.”


Pare por um segundo e pense no seu dia até aqui. Quantas vezes você pegou o celular no automático? Quanto do seu tempo foi gasto consumindo conteúdos que não acrescentaram absolutamente nada à sua vida, mas mantiveram sua atenção presa?

A tecnologia revolucionou nossa rotina, mas a pergunta incômoda é: quem está no controle?

Quando a inovação perde o foco humano, ela deixa de ser uma ponte para a liberdade e vira uma gaiola invisível. Algoritmos desenhados para viciar, dados usados para manipular decisões e plataformas que concentram renda e poder nas mãos de pouquíssimos enquanto a maioria apenas consome sem questionar.

Para que a tecnologia cumpra seu verdadeiro papel, ela precisa expandir a nossa autonomia, e não reduzi-la. Precisamos aprender a transitar do papel de meros espectadores e alvos de mercado para o de sujeitos conscientes.

Usar a rede com intenção, questionar a procedência do que lemos e exigir responsabilidade das grandes corporações não são escolhas tecnológicas — são atitudes políticas e humanas.

No fim das contas, a ferramenta nunca é neutra. Se ela não serve para melhorar a nossa vida e a da comunidade ao nosso redor, a quem exatamente ela está servindo?

E você? Sente que a tecnologia tem expandido os seus horizontes ou apenas ocupado o seu tempo? Deixe sua visão nos comentários.

27 julho 2026

Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR): importância para a gestão territorial e a prevenção de desastres


O que é o Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR)?

Durante muito tempo, a gestão de riscos no Brasil esteve baseada principalmente em ações de resposta. Em outras palavras, o poder público costumava agir de forma mais intensa depois que o desastre já havia ocorrido, concentrando esforços em ações de socorro, assistência às famílias afetadas e reconstrução das áreas atingidas.

Com a criação da Lei Federal nº 12.608/2012 e o fortalecimento das políticas de planejamento urbano e ambiental, esse modelo começou a mudar. A prevenção e a redução dos riscos passaram a ocupar um espaço mais importante na gestão das cidades.

É nesse cenário que o Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) ganha importância. Mais do que um documento técnico, o plano pode servir como uma ferramenta para orientar decisões relacionadas ao crescimento urbano, à ocupação do território e à prevenção de desastres.

Seu principal objetivo é identificar áreas sujeitas a diferentes tipos de risco e ajudar o município a definir quais medidas devem ser adotadas para reduzir esses problemas.

O PMRR reúne conhecimentos de diferentes áreas, como geologia, geografia, engenharia, planejamento urbano e defesa civil. Ao mesmo tempo, precisa considerar as características sociais e econômicas da população que vive nas áreas de risco. Dessa forma, o plano aproxima o conhecimento técnico da realidade encontrada no território.

O PMRR e o planejamento territorial das cidades

O processo de urbanização brasileiro ocorreu, em muitos casos, sem considerar adequadamente as características do meio físico. A ocupação de encostas com alta declividade, margens de rios, áreas sujeitas a alagamentos e locais influenciados pelas marés são exemplos de situações que podem aumentar a exposição da população aos riscos.

Nesse contexto, o PMRR estabelece uma relação importante entre a defesa civil e o planejamento urbano. O levantamento realizado pelo plano permite identificar as áreas mais vulneráveis e compreender quais fatores contribuem para a ocorrência dos problemas.

Identificação das áreas de risco

Uma das principais contribuições do PMRR é a identificação e caracterização das áreas de risco. O plano permite localizar as áreas ameaçadas e identificar processos que podem ocorrer, como:

  • Deslizamentos;
  • Erosão;
  • Solapamento de margens;
  • Enxurradas;
  • Inundações.

Também possibilita classificar o nível de risco de acordo com a metodologia adotada.

Apoio ao planejamento urbano

As informações produzidas pelo PMRR podem auxiliar na elaboração e na revisão do Plano Diretor, no ordenamento da ocupação do solo e na definição de áreas onde novas ocupações devem ser evitadas ou controladas.

Dessa maneira, o plano contribui para integrar a gestão de riscos ao planejamento territorial, evitando que a expansão urbana aumente a exposição da população a situações perigosas.

Definição de prioridades para investimentos

Os municípios geralmente possuem recursos limitados e precisam estabelecer prioridades. O PMRR pode ajudar nessa escolha ao indicar quais áreas apresentam maior necessidade de intervenção e quais medidas podem ser adotadas.

Entre essas medidas estão:

  • obras de drenagem;
  • contenção de encostas;
  • melhorias na infraestrutura;
  • implantação de sistemas de alerta;
  • quando necessário, reassentamento de famílias.

Assim, o plano não deve ser entendido apenas como um mapa das áreas de risco. Ele pode funcionar como uma base para orientar decisões e organizar as ações do município.

O risco também envolve questões sociais

Durante muito tempo, a análise de riscos esteve muito concentrada nos aspectos físicos do território. A preocupação estava principalmente em entender o comportamento das chuvas, do solo, das encostas e dos cursos d'água.

Esses fatores continuam sendo fundamentais, mas atualmente existe uma compreensão mais ampla sobre a formação do risco.

Um fenômeno natural, por si só, não explica a ocorrência de um desastre. Os impactos dependem também das condições de ocupação e da capacidade da população de lidar com aquele evento.

Uma chuva intensa, por exemplo, pode provocar consequências muito diferentes em uma área com infraestrutura adequada e em outra onde existem moradias precárias, deficiência de drenagem e ocupação de encostas instáveis.

A importância da vulnerabilidade social

Por isso, a vulnerabilidade social precisa ser considerada na elaboração de um PMRR.

Aspectos como:

  • condições das moradias;
  • infraestrutura disponível;
  • renda da população;
  • acesso aos serviços públicos;
  • capacidade de resposta diante de uma situação de emergência;

fazem parte da realidade do risco.

Participação da população na gestão de riscos

Outro ponto importante é a participação dos moradores. A população que vive em uma determinada área possui conhecimentos sobre o território que nem sempre aparecem nos levantamentos técnicos.

Os moradores podem indicar locais onde já ocorreram deslizamentos, alagamentos ou outros problemas, além de reconhecer sinais que antecedem determinados eventos.

A participação comunitária, portanto, pode complementar os estudos realizados pelos profissionais. Quando a população entende os riscos existentes e participa da discussão sobre as possíveis soluções, aumentam as possibilidades de que as medidas propostas sejam compreendidas e colocadas em prática.

Desafios para a implementação do PMRR

Apesar de sua importância, a elaboração de um PMRR não garante, por si só, a redução dos riscos existentes no município. Um dos principais desafios é fazer com que as informações produzidas pelo plano sejam efetivamente utilizadas pela administração pública.

Atualização dos dados e mudanças no território

Um primeiro problema está relacionado à atualização dos dados. As cidades estão em constante transformação. Novas ocupações surgem, obras alteram a drenagem e as características do terreno podem mudar ao longo do tempo.

Além disso, os eventos climáticos podem apresentar novas características. Por esse motivo, o PMRR precisa ser revisado e atualizado periodicamente.

Transformar o diagnóstico em ações concretas

Outro desafio é transformar o diagnóstico em ações concretas.

Identificar uma área de risco é apenas uma etapa do processo. É necessário definir quais medidas serão adotadas, quanto elas irão custar, quais órgãos serão responsáveis pela execução e de onde virão os recursos.

Para isso, as ações previstas no PMRR precisam estar articuladas ao planejamento e ao orçamento municipal, incluindo instrumentos como o Plano Plurianual (PPA), a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA).

Mudanças climáticas e novos cenários de risco

Também é necessário considerar as mudanças climáticas. O aumento da ocorrência ou da intensidade de determinados eventos extremos pode modificar as condições de risco existentes.

Dessa forma, o planejamento municipal precisa trabalhar não apenas com o histórico dos acontecimentos, mas também com possíveis cenários futuros.

Considerações finais: o PMRR como instrumento de prevenção

O Plano Municipal de Redução de Riscos representa uma importante ferramenta para a prevenção de desastres e para o planejamento das cidades brasileiras.

Sua importância está justamente na possibilidade de reunir informações sobre o meio físico, as condições de ocupação e as características sociais da população para orientar as decisões do poder público.

No entanto, a existência do plano não é suficiente. Para que seus resultados tenham efeito, é necessário que as informações sejam atualizadas e incorporadas às políticas municipais de habitação, infraestrutura, meio ambiente, planejamento urbano e defesa civil.

Também é fundamental garantir recursos para a execução das medidas propostas e manter a participação da população durante esse processo.

Dessa maneira, a redução de riscos deve ser entendida como parte do próprio planejamento urbano. Prevenir a ocupação de áreas inadequadas, melhorar a infraestrutura existente e acompanhar as mudanças no território são medidas que podem evitar perdas humanas, sociais e econômicas.

Mais do que agir somente depois de um desastre, o município precisa trabalhar para reduzir as condições que tornam determinados grupos e territórios mais vulneráveis. Nesse sentido, o PMRR pode contribuir para uma cidade mais preparada, organizada e capaz de enfrentar situações de risco de forma preventiva.

O que você pensa sobre o PMRR?

Na sua opinião, os municípios brasileiros estão utilizando adequadamente o Plano Municipal de Redução de Riscos para orientar o planejamento urbano e prevenir desastres?

Deixe seu comentário e compartilhe sua experiência ou percepção sobre a gestão de riscos, o planejamento territorial e a prevenção de desastres no Brasil.

Referências

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BRASIL. Lei nº 12.608, de 10 de abril de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil – PNPDEC. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 abr. 2012.

CARVALHO, Célia Regina de Gouveia; SOUZA, Celia Maria; SANTOS, Regina Célia dos (org.). Mapeamento de riscos de escorregamentos e inundações. Brasília: Ministério das Cidades; IPT, 2007.

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EGLER, Claudio Antonio Gonçalves; GUTTERRES, Hirdan Katarina de Medeiros. O risco como dimensão do planejamento territorial. In: SANTOS, Milton; SOUZA, Maria Adélia Aparecida de (org.). A produção do espaço geográfico. São Paulo: Hucitec, 1986. p. 112-128.

MARANDOLA JÚNIOR, Eduardo; HOGAN, Daniel Joseph. Vulnerabilidade e risco: entre a geografia e as ciências sociais. RBG. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 29-53, 2006.

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VEYRET, Yvette. Os riscos: o homem como agressor e vítima do meio ambiente. São Paulo: Contexto, 2007.

NORUEGA, ESTADOS UNIDOS E BRASIL: DIFERENTES CAMINHOS DO CAPITALISMO, DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E DO BEM-ESTAR SOCIAL

INTRODUÇÃO Noruega, Estados Unidos e Brasil são países capitalistas, mas organizaram suas economias e suas políticas sociais de m...