Quem nunca abriu um livro de geografia na escola e leu a clássica afirmação: “O relevo brasileiro é composto por planaltos, planícies e depressões”? Durante muito tempo, essa descrição predominou no ensino da geomorfologia brasileira, embora diversas serras do país apresentem características visualmente associadas a montanhas.
Em 2026, porém, um novo marco técnico mudou essa discussão: o Brasil passou a reconhecer oficialmente determinadas formações como montanhas dentro de um sistema nacional de classificação do relevo. Mas afinal, o que mudou?
*A dificuldade de definir o que é uma montanha*
O principal desafio sempre foi a ausência de um critério universal. Afinal, o que define uma montanha? A resposta varia de acordo com o país e com a metodologia utilizada.
Nos Estados Unidos, por exemplo, alguns critérios consideram elevações com cerca de 1.000 pés (aproximadamente 305 metros) de relevo relativo. Já entidades como a União Internacional das Associações de Alpinismo (UIAA) e classificações adotadas no Reino Unido utilizam parâmetros mais rigorosos, próximos de 2.000 pés (cerca de 610 metros).
Na Alemanha, por sua vez, existe o conceito de Reliefenergie (“energia do relevo”), que considera o desnível entre os pontos mais altos e mais baixos de uma área, em vez de analisar apenas a altitude absoluta em relação ao nível do mar.
*O relevo brasileiro é diferente*
O Brasil está localizado no interior de uma placa tectônica relativamente estável. Por isso, o país não possui cadeias montanhosas jovens e elevadas como os Andes ou o Himalaia.
Grande parte das formações brasileiras é muito antiga e passou por milhões de anos de erosão, o que resultou em relevos mais arredondados e menos abruptos. Isso sempre tornou mais complexa a aplicação direta dos critérios internacionais ao território brasileiro.
*O papel do SBCR*
Para organizar essa questão, o IBGE liderou, a partir de 2019, estudos que culminaram no Sistema Brasileiro de Classificação do Relevo (SBCR). O objetivo foi criar critérios mais adequados às características geomorfológicas do país.
Em 2026, o consenso técnico estabeleceu que, para uma formação ser classificada oficialmente como montanha no Brasil, ela deve atender a alguns requisitos fundamentais:
* possuir pelo menos 300 metros de desnível em relação ao relevo vizinho;
* apresentar encostas íngremes;
* integrar um conjunto montanhoso ou uma serra.
Além disso, o sistema considera aspectos como a organização do relevo e a proeminência da formação na paisagem.
*Nem toda formação elevada entrou na classificação*
A nova classificação é bastante específica. Algumas formações tradicionalmente associadas a montanhas, como o Monte Roraima, o Pão de Açúcar (RJ) e o Pico do Cabugi (RN), ficaram fora da categoria adotada pelo SBCR devido aos critérios técnicos utilizados, relacionados ao tipo de relevo, ao grau de isolamento ou à configuração geomorfológica.
Isso não significa que essas formações deixaram de ser relevantes do ponto de vista geográfico ou paisagístico — apenas que pertencem a categorias diferentes dentro do sistema de classificação.
*Onde estão as montanhas brasileiras?*
Segundo o IBGE, as áreas classificadas como montanhosas estão distribuídas por 14 estados brasileiros. O Rio de Janeiro se destaca pela proporção territorial ocupada por esse tipo de relevo, enquanto Minas Gerais, Bahia e Ceará concentram algumas das maiores extensões montanhosas do país.
Até mesmo regiões da Amazônia passaram a integrar oficialmente esse mapeamento geomorfológico.
Mais do que uma simples mudança de nomenclatura, a atualização representa um avanço na compreensão científica do território brasileiro. Hoje, formações como a Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro, podem ser reconhecidas oficialmente como áreas montanhosas com base em critérios técnicos adaptados à realidade geológica do Brasil.
Assim, o país passa a valorizar de forma mais precisa a diversidade e a complexidade do seu relevo.
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