28 setembro 2026

A Evolução Social do Brasil (1975–2025): Uma Leitura Além da Polarização


Ao olhar para o retrovisor das últimas cinco décadas, a economia brasileira revela uma transformação estrutural profunda na forma como a renda se distribui entre a população. Longe de narrativas partidárias ou discursos ufanistas, um levantamento consolidado pelo projeto Brasil em Mapas, utilizando bases oficiais do IBGE, Banco Mundial e FGV Social, expõe os altos e baixos da mobilidade social no país entre 1975 e 2025.

​O retrato de longo prazo: Menos pobreza, mais classe média

​Em meados da década de 1970, o Brasil enfrentava um cenário de pobreza estrutural severa, que atingia cerca de 69% da população. O contingente inserido no que se convencionou chamar de classe média (faixa da Classe C, segundo parâmetros da FGV Social) não passava de 28%.

​Cinco décadas depois, o panorama desenha uma inversão expressiva: a pobreza recuou para patamares estimados em 21% em 2025, enquanto a classe média passou a abranger 61,5% dos brasileiros. Esse movimento demonstra que, em termos macroeconômicos, o país ampliou consideravelmente o acesso ao consumo e à renda básica ao longo das gerações.

​O fator cíclico: Avanços e reversões

​A trajetória, no entanto, nunca foi linear. Os dados evidenciam que a mobilidade social caminha de mãos dadas com a estabilidade econômica, a inflação e o mercado de trabalho:

  • ​Aceleração (2003–2014): O período foi marcado por forte expansão do emprego formal, valorização real do salário mínimo e ampliação de programas de transferência de renda, resultando em quedas sucessivas na pobreza e forte migração para a classe média.
  • ​Retração e Crise (2015–2022): A sequência de crises econômicas, agravada globalmente pela pandemia de COVID-19, provocou uma reversão parcial desses indicadores. O pico da pobreza na década recente foi registrado em 2021, quando atingiu 36,8% da população, antes de retomar a trajetória de queda.
  • ​Recuperação Recente (2023–2025): Impulsionada pela recuperação do mercado de trabalho e novos ciclos de programas sociais, a taxa de pobreza voltou a encolher de forma acelerada nos últimos anos.

​Conclusão: O desafio estrutural remanescente

​Os números mostram que o Brasil é hoje um país substancialmente menos empobrecido do que na era industrial do século passado. Contudo, analistas ponderam que o crescimento da Classe C, embora reflita importante mobilidade social, não elimina por si só a vulnerabilidade econômica e a alta desigualdade de riqueza que ainda caracterizam o topo e a base da pirâmide brasileira. O desafio para os próximos anos permanece sendo consolidar o crescimento econômico com bases sustentáveis, blindando a população contra choques inflacionários e instabilidades globais.

27 setembro 2026

Fé, Poder e Autoritarismo: O que é a Teologia do Domínio e sua Relação com a Extrema Direita

Ao ligarmos o noticiário político internacional ou nacional, é cada vez mais comum depararmo-nos com bandeiras religiosas, discursos apocalípticos e líderes políticos que se apresentam não apenas como governantes, mas como figuras ungidas por Deus. Esse fenômeno não é um acidente histórico, mas o reflexo da expansão de uma corrente ideológica e teológica conhecida como Teologia do Domínio. Compreender o que ela significa, como se conecta com a ascensão da extrema direita global e de que maneira repete velhos padrões ditatoriais da história humana é essencial para quem defende a democracia e o Estado laico.

Em termos conceituais, a Teologia do Domínio, muitas vezes associada ao dominionismo, é um conjunto de correntes com raízes no protestantismo conservador norte-americano e ramificações em outras esferas religiosas. Ela interpreta o famoso texto bíblico do Gênesis sobre ter domínio sobre a criação não como um chamado ao cuidado ecológico ou à gestão ética, mas como um mandato político estrito. De acordo com essa visão, os grupos que detêm a interpretação correta da fé teriam o dever divino de conquistar e submeter as instituições civis, incluindo o governo, a justiça, a educação, a mídia, a cultura e a economia. Em vez de separar a fé da esfera pública, o dominionismo prega que as leis civis devem ser subordinadas a preceitos religiosos, transformando crença espiritual em um projeto explícito de poder terreno.

Nas últimas décadas, essa teologia deixou os compêndios marginais para funcionar como a argamassa ideológica da extrema direita contemporânea em várias partes do mundo. Essa aliança se sustenta em pilares estratégicos muito claros, a começar pela lógica do "nós contra eles", onde a política deixa de ser um debate republicano e passa a ser tratada como uma batalha espiritual, transformando o adversário político em um agente do mal. Outro pilar é o mito do líder ungido, que faz com que líderes populistas de extrema direita, mesmo com biografias distantes da moral religiosa tradicional, sejam vistos como salvadores cujos excessos são perdoados em nome de sua missão restauradora. Completa esse cenário o revisionismo nacionalista, que promove a ideia de que o país era originalmente uma nação cristã corrompida por forças seculares ou minorias, justificando medidas de exceção.

A instrumentalização da religião para fins de controle político não é novidade, pois a história demonstra que o cruzamento entre o altar e o trono sempre gerou regimes de opressão. O uso da religião como ferramenta de domesticação social e legitimação de tiranias é uma das táticas mais antigas do poder autoritário. Durante séculos, monarquias absolutistas justificaram abusos alegando responder apenas a Deus, tornando a contestação política um pecado passível de punição. Da mesma forma, o fascismo e o nazismo na Europa buscaram legitimação junto às igrejas tradicionais para anestesiar o pensamento crítico das massas, enquanto teocracias modernas mostram o ápice desse projeto ao fundirem lei civil e religiosa para erradicar liberdades individuais.

O perigo central da Teologia do Domínio e sua simbiose com a extrema direita reside na destruição da pluralidade democrática. Uma democracia saudável exige tolerância, alternância de poder e a premissa de que nenhuma visão de mundo pode se impor de forma absoluta sobre os demais cidadãos. Quando a política é vestida com mantos sagrados, o debate racional morre, o dissenso passa a ser considerado heresia e o autoritarismo ganha o aval de fiéis que acreditam lutar pelo bem, mas que acabam servindo a projetos de dominação terrena e exclusão social. Estar atento a esses discursos é o primeiro passo para defender a liberdade de crença e a integridade das instituições democráticas.

O que você tem observado sobre o avanço desse discurso religioso na política do nosso país? Deixe sua opinião nos comentários!




25 setembro 2026

Meio ambiente: para além da reciclagem e dos projetos pedagógicos, uma análise crítica


Final do ano letivo chegando e, com ele, a gincana de reciclagem na escola do bairro. Crianças separam garrafas PET, tampinhas coloridas se acumulam em potes de vidro, um mural anuncia a "Semana do Meio Ambiente". No mercado, a sacola retornável, comprada por dois reais no caixa, descansa no carrinho como um pequeno troféu de consciência. Nas redes sociais, o apelo se repete: "faça a sua parte", "pequenas atitudes fazem a diferença", "o planeta agradece".

Não há nada de errado nesses gestos, tomados isoladamente. O problema está no que eles deixam de fora.

Essas práticas (a reciclagem doméstica, a redução do consumo de plástico individual, os projetos escolares pontuais) cumprem um papel real, mas parcial: são portas de entrada para uma sensibilidade ecológica. O risco aparece quando se tornam o teto, e não o piso, do debate ambiental. Quando a "consciência individual" é apresentada como resposta suficiente a uma crise que é, em sua origem e em sua escala, estrutural, sistêmica e política, ela deixa de ser educação e passa a funcionar como cortina de fumaça: um véu que desloca o olhar do consumidor para longe das chaminés, das planilhas de lucro e das decisões regulatórias que de fato moldam o destino do planeta.

A ilusão da reciclagem

Há uma história pouco contada por trás do símbolo das três setas verdes que persegue embalagens ao redor do mundo. Nos anos 1970, diante da pressão crescente por regulação sobre resíduos plásticos nos Estados Unidos, a indústria petroquímica (a mesma que produz a matéria-prima do plástico) financiou campanhas robustas para popularizar a ideia de que o problema do lixo poderia ser resolvido pelo comportamento do consumidor. A campanha "Keep America Beautiful", das décadas de 1950 a 1970, é um marco desse deslocamento: ela transformou a poluição, antes associada à produção industrial, em uma questão de pessoas que jogavam lixo na rua.

O resultado é uma lógica que se mantém até hoje. A responsabilidade pelo destino de um material que nunca foi verdadeiramente projetado para ser reciclado (grande parte do plástico produzido no mundo tem taxa real de reciclagem muito baixa, por razões técnicas e econômicas) recai sobre quem o descarta, não sobre quem decide fabricá-lo daquela forma, naquele volume, com aquela composição química.

Esse mecanismo tem nome: greenwashing, a maquiagem verde que empresas aplicam sobre práticas que, em sua essência, permanecem predatórias. Não é só propaganda enganosa pontual. É uma estratégia estrutural de transferência de ônus. Ao investir pesadamente em campanhas que celebram a separação do lixo pelo cidadão comum, corporações do setor de embalagens, energia e agronegócio deslocam o centro do debate: em vez de perguntarmos por que uma empresa produz bilhões de embalagens descartáveis por ano, perguntamos se o cidadão separou corretamente o lixo orgânico do reciclável.

Isso não significa que reciclar seja inútil. Significa que reciclar, sozinho, é insuficiente para alterar a trajetória de uma crise cujas causas estão na escala da produção industrial, da matriz energética e dos modelos de negócio extrativistas. Colocar o peso moral dessa transformação nas costas do indivíduo é, ao mesmo tempo, injusto e estrategicamente conveniente para quem não quer ser regulado.

A crítica aos projetos pedagógicos tradicionais

A escola, historicamente, absorveu essa mesma lógica fragmentada. Educação ambiental, em muitas instituições, ainda se resume a um conjunto de rituais recorrentes: plantar uma muda no pátio, montar um vaso com garrafa PET cortada, desenhar um cartaz com a Terra sorridente e o slogan "cuide do planeta". São atividades sensorialmente agradáveis, fotogênicas para o mural da escola, e raramente acompanhadas de uma pergunta mais incômoda: por que certos territórios recebem lixo, poluição e risco ambiental, enquanto outros não?

Essa pergunta leva a um conceito frequentemente ausente das salas de aula: o racismo ambiental. Trata-se do padrão, documentado em pesquisas ao redor do mundo, inclusive no Brasil, com estudos sobre bairros periféricos, comunidades quilombolas e territórios indígenas, segundo o qual populações negras, indígenas e de baixa renda são desproporcionalmente expostas a aterros sanitários, indústrias poluentes, enchentes e falta de saneamento básico. Não é acidente geográfico. É resultado de decisões históricas de planejamento urbano, especulação imobiliária e ausência de representação política dessas comunidades nos espaços de decisão.

Uma educação ambiental que ensina a separar o lixo, mas não discute por que certos bairros vivem debaixo de linhas de transmissão ou ao lado de lixões, produz um tipo peculiar de cidadão: engajado esteticamente, mas desarmado conceitualmente. Sabe reciclar uma garrafa, mas não sabe nomear a desigualdade socioespacial que faz da crise climática uma crise também de classe e de raça. Os primeiros a sofrer os efeitos de secas, enchentes e ondas de calor são quase sempre os que menos contribuíram historicamente para o problema.

Da mesma forma, poucos projetos escolares tocam no modelo de consumo desenfreado como questão estrutural: a obsolescência programada, o incentivo publicitário ao descarte constante, a lógica de crescimento infinito em um planeta finito. Fala-se em "consumir menos" como escolha pessoal, mas raramente se discute o sistema econômico que depende do consumo crescente para se sustentar, e que investe bilhões para estimular exatamente o comportamento que depois pede ao indivíduo para conter.

Isso não é um convite ao desespero ou ao cinismo diante da escola. É um convite à ampliação: da atividade artesanal pontual para a formação de um pensamento crítico contínuo, capaz de conectar o vaso de garrafa PET à cadeia de decisões que fez daquele plástico um objeto descartável em primeiro lugar.

O horizonte necessário

Se a reciclagem e os projetos pedagógicos tradicionais são o ponto de partida, qual é o horizonte?


É a construção de uma cidadania ecológica e política, que não se encerra na porta de casa nem nos muros da escola, mas se estende à esfera pública, onde as decisões que realmente definem a trajetória climática do planeta são tomadas.


Isso significa, em primeiro lugar, entender a diferença entre justiça ambiental e caridade ambiental. Não basta distribuir mudas ou promover mutirões de limpeza em rios poluídos, se as comunidades ribeirinhas continuam sem poder de decisão sobre o que é despejado rio acima. Justiça climática significa reconhecer que os países e populações que menos emitiram gases de efeito estufa historicamente são, com frequência, os mais atingidos por secas, enchentes e deslocamentos forçados, e que qualquer solução real precisa incluir mecanismos de reparação e adaptação para essas populações, não apenas mitigação genérica.


Em segundo lugar, significa deslocar o foco da ação individual para a regulação industrial e a incidência política. Cobrar de uma empresa que reduza emissões, que se responsabilize pelo ciclo de vida completo de seus produtos, que pare de desmatar para expandir monocultura, tem impacto de ordem de grandeza muito superior à troca de um copo descartável por um copo reutilizável, ainda que uma ação não exclua a outra. Participar de audiências públicas sobre licenciamento ambiental, apoiar organizações de incidência climática, cobrar de representantes eleitos políticas de transição energética justa, entender e discutir tratados internacionais sobre clima: esses são atos de cidadania que operam na escala em que o problema realmente existe.


Em terceiro lugar, significa reconhecer o voto, a organização coletiva e a pressão social como ferramentas ambientais tão legítimas, e mais eficazes na escala necessária, quanto a separação do lixo doméstico. Movimentos sociais, sindicatos, coletivos de bairro e articulações indígenas têm historicamente conquistado mais proteção ambiental por meio de mobilização e disputa política do que por apelos ao consumo consciente.


Conclusão: da indignação à pressão estrutural


A proposta aqui não é abandonar a sacola retornável, nem esvaziar de sentido a gincana escolar de reciclagem. A proposta é recusar que esses gestos sejam o ponto final do nosso engajamento ambiental, quando deveriam ser apenas sua porta de entrada.


A crise climática e ambiental que vivemos não será resolvida por bilhões de decisões individuais isoladas, por mais bem-intencionadas que sejam. Ela exige mudança de escala: nas matrizes energéticas, nos modelos de produção, nas legislações de proteção territorial, nos mecanismos de responsabilização corporativa. Exige uma educação que não tenha medo de nomear o racismo ambiental, a desigualdade socioespacial e os interesses econômicos que sustentam a inação climática, mesmo que isso seja mais desconfortável do que montar um vaso de garrafa PET.


O convite final, então, é este: que a indignação legítima diante da crise ambiental, que já habita tantas salas de aula, tantas rodas de conversa, tantos corações inquietos, deixe de se dissolver em gestos simbólicos isolados e se converta em pressão organizada, sustentada e política. Que a mesma energia usada para separar o lixo seja também usada para cobrar, fiscalizar, votar, organizar e exigir. O planeta não precisa apenas de cidadãos mais conscientes. Precisa, sobretudo, de cidadãos mais incisivos, dispostos a disputar, coletivamente, o poder de decidir seu próprio futuro.

15 setembro 2026

“Se a tecnologia não serve para emancipar, proteger e dignificar a vida humana, ela passa a servir apenas como ferramenta de alienação e concentração de poder.”


Pare por um segundo e pense no seu dia até aqui. Quantas vezes você pegou o celular no automático? Quanto do seu tempo foi gasto consumindo conteúdos que não acrescentaram absolutamente nada à sua vida, mas mantiveram sua atenção presa?

A tecnologia revolucionou nossa rotina, mas a pergunta incômoda é: quem está no controle?

Quando a inovação perde o foco humano, ela deixa de ser uma ponte para a liberdade e vira uma gaiola invisível. Algoritmos desenhados para viciar, dados usados para manipular decisões e plataformas que concentram renda e poder nas mãos de pouquíssimos enquanto a maioria apenas consome sem questionar.

Para que a tecnologia cumpra seu verdadeiro papel, ela precisa expandir a nossa autonomia, e não reduzi-la. Precisamos aprender a transitar do papel de meros espectadores e alvos de mercado para o de sujeitos conscientes.

Usar a rede com intenção, questionar a procedência do que lemos e exigir responsabilidade das grandes corporações não são escolhas tecnológicas — são atitudes políticas e humanas.

No fim das contas, a ferramenta nunca é neutra. Se ela não serve para melhorar a nossa vida e a da comunidade ao nosso redor, a quem exatamente ela está servindo?

E você? Sente que a tecnologia tem expandido os seus horizontes ou apenas ocupado o seu tempo? Deixe sua visão nos comentários.

O mito da eficiência e a miragem do "aluno-mercado": o que o neoliberalismo fez com a nossa escola pública?

  O mito da eficiência e a miragem do "aluno-mercado": o que o neoliberalismo fez com a nossa escola pública? A lógica de mercado ...