O mito da eficiência e a miragem do "aluno-mercado": o que o neoliberalismo fez com a nossa escola pública?
A lógica de mercado não pede licença. Ela entra pelas portas das escolas públicas travestida de palavras bonitas: inovação, empreendedorismo, produtividade, meritocracia. Sob o pretexto de modernizar a formação humana no ensino básico, a racionalidade neoliberal transformou o ambiente escolar em uma engrenagem fria de moer gente, onde o conhecimento crítico dá lugar ao adestramento técnico, à padronização curricular e à meta quantitativa.
Vendem-nos a ideia do estudante como uma "empresa de si mesmo" desde a infância e a juventude. Nesse cenário, o aluno da escola pública deixa de ser um sujeito histórico em formação para se tornar um cliente ou um ativo financeiro em busca de capital humano para o mercado de trabalho. A aprendizagem é esvaziada de seu sentido social e comunitário, sendo reduzida a competências operacionais e habilidades comportamentais imediatamente utilizáveis pelas corporações. Não se ensina mais a questionar as estruturas, as desigualdades regionais ou as contradições do espaço urbano; ensina-se a performar, a competir e a se adaptar passivamente às exigências da produção contemporânea.
Nas redes públicas de ensino básico, essa lógica se desdobra em uma precarização sistemática do trabalho pedagógico. Professores da educação básica, sufocados por rotinas burocráticas, falta de infraestrutura e avaliações externas baseadas puramente em métricas de rendimento, viram meros executores de pacotes educacionais prontos. O saber escolar e o pensamento crítico passam a ser julgados não pelo seu impacto emancipatório na comunidade ou pelo desenvolvimento da cidadania, mas pelo seu potencial de adestramento e adequação dos jovens às demandas imediatas do empresariado.
O resultado dessa conta não poderia ser outro: o adoecimento coletivo dos profissionais da educação, o desestímulo dos estudantes, o esvaziamento do debate social e a naturalização das vulnerabilidades da periferia. Quando a gestão escolar pública é guiada como um balcão de negócios, a desigualdade socioeconômica deixa de ser um problema estrutural a ser superado e passa a ser tratada como um simples fracasso individual do aluno que "não se esforçou o suficiente".
Até quando aceitaremos que o destino das futuras gerações das nossas redes públicas seja traçado por planilhas de metas, testes padronizados e cartilhas corporativas? A escola pública não existe para servir ao mercado; ela existe para humanizar o mundo, compreender o espaço vivenciado e libertar o pensamento. Se a sala de aula abdica do seu papel provocador e contestador, ela deixa de formar cidadãos conscientes da sua realidade e passa a fabricar apenas peças de reposição para o sistema produtivo.
