A gestão de riscos no Brasil viveu, por décadas, um paradigma prioritariamente reativo: esperava-se a tragédia acontecer para, então, mobilizar recursos de socorro, assistência e reconstrução. No entanto, a consolidação da Lei Federal nº 12.608/2012 e os avanços na governança ambiental e urbana no país apontaram para uma mudança definitiva de rumo — e é exatamente nesse contexto que o Plano Municipal de Redução de Ricos (PMRR) se afirma não apenas como um documento técnico, mas como um instrumento estruturante de política pública e planejamento territorial.
Longe de ser uma simples formalidade burocrática, o PMRR é o ponto de encontro entre a geociência aplicada, a engenharia e a realidade socioespacial das cidades brasileiras.
O PMRR como Instrumento de Gestão Territorial Integrada
O planejamento urbano no Brasil historicamente negligenciou a dinâmica do meio físico. O resultado desse descompasso entre a ocupação e a dinâmica natural dos sistemas terrestres é a proliferação de áreas vulneráveis, sobretudo em encostas declivosas, planícies de inundação e áreas marcadas pela variação do nível de marés.
É aqui que o PMRR atua como elo entre a defesa civil e o planejamento urbano:
Mapeamento de Precisão e Tipificação de Cenários: O plano não aponta apenas "onde" está o risco, mas qualifica a sua natureza (escorregamentos, solapamentos de margem, enxurradas, erosão contínua ou colapsos cársticos) e mensura o grau de severidade (de R1, baixo, a R4, muito alto).
Subvenção ao Plano Diretor e ao Uso do Solo: Sem o detalhamento trazido pelo PMRR, o Plano Diretor corre o risco de ser uma carta de intenções abstrata. O mapeamento do risco impõe limites reais à expansão urbana, orienta o zoneamento socioambiental e define parâmetros construtivos indispensáveis.
Hierarquização do Investimento Público: Em municípios com orçamentos restritos, a tomada de decisão não pode ser empírica. O PMRR fornece uma matriz de prioridades embasada em critérios científicos, indicando onde as obras de intervenção estrutural (contenções, drenagem, consolidação) e não estrutural (sistemas de alerta, remoções pontuais, reassentamento assistido) terão maior impacto na salvaguarda de vidas.
Além do Concreto: A Dimensão Social do Risco
Um dos grandes equívocos da engenharia tradicional foi abordar o risco estritamente sob o prisma físico — o volume de chuva contra a resistência do solo. A pesquisa contemporânea em desastres, alinhada aos marcos internacionais como o Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres (2015-2030), demonstra que não existem desastres naturais; existem eventos naturais que atingem sistemas vulneráveis.
O risco é uma construção social. Ele se materializa onde a vulnerabilidade socioeconômica encontra com manifestação de fenômenos naturais, de origem geológica ou hidrológica.
Por essa razão, a elaboração de um PMRR verdadeiramente eficaz exige a integração da cartografia social. Ouvir a comunidade, mapear a memória dos eventos históricos através do saber local e envolver os moradores no reconhecimento dos sinais de instabilidade do terreno são etapas tão vitais quanto as modelagens matemáticas de estabilidade de taludes ou a morfometria de bacias hidrográficas.
Quando a população compreende o diagnóstico e participa da construção das alternativas de mitigação, o plano deixa de ser um relatório guardado na prateleira da prefeitura e passa a ser uma ferramenta de cidadania e resiliência comunitária.
Desafios para a Efetividade das Políticas Públicas
Apesar de seu papel central, a consolidação do PMRR no Brasil enfrenta gargalos históricos que precisam ser superados:
A Armadilha da Descontinuidade: O PMRR não é um retrato estático. A dinâmica de ocupação das cidades e as frequentes alterações na magnitude dos eventos pluviométricos exigem que o plano seja revisado periodicamente. Um mapa de risco desatualizado pode gerar diagnósticos falsos e intervenções equivocadas.
Da Análise à Ação: O mapeamento é o diagnóstico, não a cura. Para que o PMRR se concretize como política pública de fato, seus apontamentos devem estar explicitamente vinculados ao Plano Plurianual (PPA), à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e à busca por financiamentos federais e internacionais.
A Adaptação às Mudanças Climáticas: A intensificação de eventos extremos exige que as metodologias de análise de risco incorporem projeções climáticas futuras, prevendo cenários onde limiares críticos de precipitação serão ultrapassados com maior frequência.
Um Compromisso com o Futuro das Cidades
Investir na elaboração e na implementação do Plano Municipal de Redução de Riscos é, em última análise, optar por uma gestão pública ética e preventiva. Cada real aplicado no conhecimento do meio físico, na infraestrutura verde e na consolidação de áreas de risco reduz exponencialmente os custos humanos, sociais e econômicos das reconstruções pós-desastre.
ACSELRAD, Henri. Vulnerabilidade ambiental, processos socioespaciais e redes de cidadania. In: ENCONTRO NACIONAL DA ANPPAS, 1., 2002, Indaiatuba. Anais [...]. Indaiatuba: ANPPAS, 2002. p. 1-15.
ALHEIROS, Margareth Mascarenhas; SOUZA, Celia Maria; BITTAR, Omar Yazbek; CURCIO, Luciana de Cássia. Manual de mapeamento de perigo e risco a escorregamentos em encostas. Brasília: Ministério das Cidades; IPT, 2007.
BRASIL. Lei nº 12.608, de 10 de abril de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil - PNPDEC; altera as Leis nos 12.340, de 1º de dezembro de 2010, 10.257, de 10 de julho de 2001, 6.766, de 19 de dezembro de 1979, e os Decretos-Leis nos 3.365, de 21 de junho de 1941, e 5.452, de 1º de maio de 1943; e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 149, n. 71, p. 1-5, 11 abr. 2012.
CARVALHO, Célia Regina de Gouveia; SOUZA, Celia Maria; SANTOS, Regina Célia dos (org.). Mapeamento de riscos de escorregamentos e inundações. Brasília: Ministério das Cidades; IPT, 2007.
CHRISTOFOLETTI, Antonio. Geomorfologia. 2. ed. São Paulo: Edgard Blücher, 1981.
EGLER, Claudio Antonio Gonçalves; GUTTERRES, Hirdan Katarina de Medeiros. O risco como dimensão do planejamento territorial. In: SANTOS, Milton; SOUZA, Maria Adélia Aparecida de (org.). A produção do espaço geográfico. São Paulo: Hucitec, 1986. p. 112-128.
MARANDOLA JÚNIOR, Eduardo; HOGAN, Daniel Joseph. Vulnerabilidade e risco: entre a geografia e as ciências sociais. RBG. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 29-53, 2006.
TOMINAGA, Lídia Keiko; SANTORO, Jair; AMARAL, Rosangela do (org.). Desastres naturais: conhecer para prevenir. São Paulo: Instituto Geológico, 2009.
UNDRR. United Nations Office for Disaster Risk Reduction. Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres 2015-2030. Genebra: UNDRR, 2015.
VEYRET, Yvette. Os riscos: o homem como agressor e vítima do meio ambiente. São Paulo: Contexto, 2007.
CHRISTOFOLETTI, Antonio. Geomorfologia. 2. ed. São Paulo: Edgard Blücher, 1981.
EGLER, Claudio Antonio Gonçalves; GUTTERRES, Hirdan Katarina de Medeiros. O risco como dimensão do planejamento territorial. In: SANTOS, Milton; SOUZA, Maria Adélia Aparecida de (org.). A produção do espaço geográfico. São Paulo: Hucitec, 1986. p. 112-128.
MARANDOLA JÚNIOR, Eduardo; HOGAN, Daniel Joseph. Vulnerabilidade e risco: entre a geografia e as ciências sociais. RBG. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 29-53, 2006.
TOMINAGA, Lídia Keiko; SANTORO, Jair; AMARAL, Rosangela do (org.). Desastres naturais: conhecer para prevenir. São Paulo: Instituto Geológico, 2009.
UNDRR. United Nations Office for Disaster Risk Reduction. Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres 2015-2030. Genebra: UNDRR, 2015.
VEYRET, Yvette. Os riscos: o homem como agressor e vítima do meio ambiente. São Paulo: Contexto, 2007.
Nenhum comentário:
Postar um comentário