15 julho 2026

O Novo Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo (SBCR): uma revisão crítica: Uma reinterpretação da geomorfologia nacional a partir de critérios morfométricos, à luz da literatura brasileira e internacional

Introdução

O relevo brasileiro sempre foi ensinado, em livros didáticos e cursos universitários, a partir de três classificações clássicas: a de Aroldo de Azevedo (1949), a de Aziz Ab'Sáber (1970) e a de Jurandyr Ross (1985). Cada uma trouxe avanços conceituais para sua época, mas a coexistência de sistemas distintos — com critérios, escalas e terminologias nem sempre compatíveis — dificultava a comparação de mapas produzidos por diferentes instituições e a padronização do ensino de Geografia Física no país.

Para resolver essa lacuna, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) e a União da Geomorfologia Brasileira (UGB), iniciou em 2019 a construção de um sistema taxonômico único: o Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo (SBCR). Desde então, o projeto avançou por meio de workshops técnicos periódicos — já são cinco realizados até 2026 — reunindo pesquisadores de dezenas de instituições de ensino e pesquisa de todas as regiões do país.

Este texto reúne o estado atual da proposta, sistematiza sua estrutura taxonômica e a contextualiza frente a critérios morfométricos adotados internacionalmente para a definição de montanhas.

Histórico e institucionalização do projeto

O processo de construção do SBCR começou oficialmente em 2019, durante o XVIII Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada, quando pesquisadores apontaram a ausência de um padrão nacional de classificação do relevo. A partir daí, o IBGE passou a coordenar um Comitê Executivo Nacional (CEN/SBCR), com a participação de núcleos locais colaborativos (NLCs) espalhados pelo território, responsáveis por levantar informações regionais.

O segundo workshop, realizado em 2023, consolidou o primeiro grande avanço conceitual: a definição das cinco classes fundamentais do primeiro nível taxonômico — montanhas, planaltos, tabuleiros, superfícies rebaixadas e planícies. Os workshops seguintes, em 2024 e 2025, avançaram sobre a representação cartográfica do primeiro táxon e sobre a definição conceitual do segundo. Uma primeira versão pública da taxonomia é esperada a partir de 2026.

O respaldo acadêmico do sistema já se reflete em publicações revisadas por pares, como o artigo “Breve estado da arte do Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo (SBCR): contribuições de e para a sociedade científica geomorfológica”, publicado na Revista Brasileira de Geografia (IBGE, 2022).

Estrutura taxonômica: uma leitura em múltiplas escalas

O SBCR organiza o relevo em níveis hierárquicos (táxons), do mais geral ao mais detalhado, permitindo que a mesma paisagem seja lida em diferentes escalas de análise — da macroforma regional até feições pontuais de origem erosiva ou antrópica.

1º Táxon — Grandes Formas de Relevo (escala regional)

O primeiro nível estabelece cinco macroformas, definidas por critérios morfométricos e de gênese:

  • Montanhas — o ponto de maior repercussão pública do sistema. Rompe-se com a ideia, difundida por décadas, de que o Brasil não teria montanhas por ausência de orogenias recentes. O critério adotado é estritamente morfológico: amplitude topográfica local superior a 300 metros em relação ao entorno, encostas íngremes e topos aguçados ou em crista, associados a conjuntos serranos (elevações isoladas não se qualificam). Por esse critério, formas de topo aplainado — caso do Monte Roraima — permanecem classificadas como planalto, assim como elevações isoladas como o Pão de Açúcar (RJ) e o Pico do Cabugi (RN).

  • Superfícies Rebaixadas — categoria mais ampla que substitui o antigo conceito de “depressão”: toda depressão é uma superfície rebaixada, mas nem toda superfície rebaixada constitui uma depressão no sentido clássico.

  • Planaltos — áreas de predomínio denudacional, geralmente delimitadas por escarpas.

  • Planícies — áreas de predomínio deposicional, onde a sedimentação supera o desgaste.

  • Tabuleiros — formas de topo plano e bordas escarpadas, típicas de bacias sedimentares costeiras.

Segundo dados do próprio IBGE, áreas montanhosas já foram reconhecidas em 14 unidades da federação, com destaque em extensão proporcional para o Rio de Janeiro e em área absoluta para Minas Gerais, Bahia e Ceará. Formações no interior da Paraíba, como o Pico do Jabre (Serra de Teixeira, Maturéia), com mais de 1.200 metros de altitude, também passaram a ser reconhecidas oficialmente como montanhas.

2º Táxon — Morfoestruturas

O segundo nível relaciona as macroformas à base geológica sobre a qual se assentam, considerando litologia e arcabouço geotectônico:

  • Crátons (escudos cristalinos antigos, como o Cráton Amazônico);

  • Bacias Sedimentares Intracratônicas;

  • Cinturões Orogênicos e Coberturas Cenozoicas.

3º Táxon (e níveis seguintes) — Morfoesculturas e detalhamento

A partir do terceiro nível, o sistema passa a individualizar unidades morfológicas dentro das macroformas já mapeadas, considerando gênese, dinâmica erosiva ou deposicional, rugosidade topográfica e formato de vertentes e vales. É neste nível que se distinguem, por exemplo, modelados de agradação (planícies e terraços fluviais) e modelados de degradação (colinas, morros, cristas). Os táxons subsequentes (4º ao 6º) descem a escalas ainda maiores, mapeando vertentes individuais e feições pontuais associadas a processos erosivos atuais ou a intervenções humanas, como ravinas, voçorocas e taludes.

O critério de montanha em perspectiva internacional

Um dos pontos mais debatidos do SBCR é justamente a definição de montanha, tema que não possui consenso universal na geografia física. Cada país adota seus próprios parâmetros, geralmente combinando altitude relativa, declividade e morfologia do topo:



O critério brasileiro aproxima-se, portanto, do parâmetro morfométrico norte-americano, mas acrescenta exigências de forma (topo e vertente) e de contexto espacial (pertencimento a um conjunto serrano), ausentes na maior parte dos padrões internacionais consultados. Essa combinação de amplitude, morfologia e continuidade espacial é o que justifica, por exemplo, a exclusão de elevações isoladas — ainda que expressivas em altitude — da categoria de montanha.

Desafios estruturais para a implementação

Apesar do avanço metodológico, especialistas apontam ao menos três desafios relevantes para a consolidação do SBCR:

  • Dependência tecnológica — a delimitação precisa das áreas montanhosas e das microformas do relevo exige Modelos Digitais de Elevação de alta resolução e capacidade de geoprocessamento ainda em fase de estruturação pelo IBGE.

  • Incompatibilidade de escala — os táxons mais detalhados (3º em diante) dependem de levantamentos cartográficos de grande escala, hoje inexistentes de forma padronizada para todo o território nacional, o que limita sua aplicação imediata em planos diretores municipais.

  • Transição didática — a mudança do paradigma histórico de “ausência de montanhas” exigirá revisão de livros didáticos e formação continuada de professores da educação básica, processo que tende a se estender por vários anos após a publicação oficial da taxonomia.

Considerações finais

O SBCR representa a tentativa mais ambiciosa já feita de unificar a linguagem da geomorfologia brasileira sob critérios morfométricos objetivos e replicáveis, superando a fragmentação entre classificações regionais que vigorava desde meados do século XX. Ao reconhecer formalmente a existência de áreas montanhosas em 14 estados — sob critérios comparáveis, ainda que não idênticos, aos adotados por agências como o USGS e por organismos como a UIAA — o sistema aproxima o Brasil de um padrão cartográfico mais alinhado às práticas internacionais, ao mesmo tempo em que preserva especificidades próprias da paisagem e da história geológica do território nacional.

A consolidação definitiva do sistema, no entanto, depende ainda da publicação do mapa oficial do primeiro táxon — prevista pelo IBGE para 2026 — e da definição completa dos

níveis taxonômicos subsequentes nos anos seguintes.



Referências

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo. Rio de Janeiro: IBGE, 2019–2026. Disponível em: ibge.gov.br/geociencias.

COMITÊ EXECUTIVO NACIONAL DO SISTEMA BRASILEIRO DE CLASSIFICAÇÃO DE RELEVO. Breve estado da arte do Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo (SBCR): contribuições de e para a sociedade científica geomorfológica. Revista Brasileira de Geografia, v. 67, n. 2, 2022. DOI: 10.21579/issn.2526-0375_2022_n2_212-227.

AB'SÁBER, Aziz Nacib. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

ROSS, Jurandyr Luciano Sanches. Geomorfologia: ambiente e planejamento. São Paulo: Contexto, 1990.

AZEVEDO, Aroldo de. Brasil: a terra e o homem. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1949.

U.S. GEOLOGICAL SURVEY (USGS). Geographic Names Information System — landform definitions. Reston: USGS.

UNION INTERNATIONALE DES ASSOCIATIONS D'ALPINISME (UIAA). Mountain definitions and classification standards.

IBGE. Agência de Notícias. IBGE lança relatório do 3º e 4º Workshops sobre o Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo. Rio de Janeiro, 2025–2026.





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