23 janeiro 2026

O Brasil e o Mito do Liberalismo de Prateleira: Por que a História Importa?

 

Muitas vezes, o debate econômico no Brasil é tratado como uma escolha simples entre "mais Estado" ou "mais Mercado", como se estivéssemos escolhendo um produto em uma prateleira. No entanto, para entender por que uma lógica puramente liberal encontra tanta resistência — e dificuldade de implementação — no Brasil, precisamos olhar para o espelho da história.

1. A Herança de um Mercado que Nasceu "Torto"

Diferente das democracias liberais do Hemisfério Norte, onde o mercado se desenvolveu combatendo o absolutismo, o mercado brasileiro nasceu umbilicalmente ligado ao Estado e à escravidão.

  • O peso do passado: Foram quase quatro séculos de escravidão. Isso não gerou apenas uma dívida moral, mas uma distorção econômica: uma massa populacional deixada à margem do consumo e da educação.

  • A falha da "Mão Invisível": Onde a desigualdade é abissal e estrutural, o livre mercado tende a perpetuar as elites existentes em vez de promover a mobilidade social. Sem o Estado como regulador e indutor, a "mão invisível" apenas reforça o status quo.

2. O Estado como Motor da Industrialização

Se o Brasil deixou de ser uma economia puramente agrária no século XX, não foi por iniciativa espontânea do capital privado, mas por uma decisão política de Estado.

  • Investimento de Risco: Setores estratégicos (energia, siderurgia, telecomunicações) exigiam investimentos que o empresariado nacional não podia ou não queria arcar.

  • O Exemplo da História: Da Era Vargas ao Juscelino Kubitschek, o salto industrial brasileiro foi planejado. Ignorar essa capacidade indutora do Estado hoje, em um cenário de desindustrialização precoce, pode condenar o país a ser novamente apenas um exportador de matéria-prima.

3. O Capitalismo de Laços vs. Livre Iniciativa

Um dos maiores argumentos contra o liberalismo aplicado ao Brasil é que, na prática, ele muitas vezes se transforma em "liberdade para os amigos do rei".

  • Privatizações e Subsídios: Historicamente, muitas reformas liberais no Brasil não resultaram em mais concorrência, mas na transferência de monopólios estatais para grupos privados com forte influência política.

  • A Realidade Brasileira: Em um país onde o lobby político é poderoso, a ausência de um Estado forte e fiscalizador não gera um mercado livre, mas sim um terreno fértil para o patrimonialismo.

Conclusão:Nem Cópia, Nem Isolamento

Gerir o Brasil não é sobre negar o mercado, mas entender que o mercado brasileiro não opera no vácuo. A nossa história de desigualdade extrema e formação dependente exige um Estado que não seja apenas um "vigia", mas um arquiteto do desenvolvimento.

O desafio não é escolher entre o liberalismo ou o estatismo, mas sim construir um modelo que reconheça nossas feridas históricas e use a força do Estado para criar, finalmente, um mercado que seja verdadeiramente para todos.

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