A discussão sobre a existência de
montanhas no Brasil perpassa, fundamentalmente, pela evolução do pensamento
geomorfológico e pela adoção de novos critérios classificatórios que
transcendem a visão clássica da geologia. Historicamente, a definição de
"montanha" esteve atrelada quase exclusivamente aos orógenos
modernos, resultantes de choques de placas tectônicas recentes, como os Andes e
o Himalaia. No entanto, a geomorfologia brasileira contemporânea tem avançado
na sistematização de conceitos que permitem identificar formações montanhosas
no país a partir de critérios morfoestruturais e morfoclimáticos específicos.
1. Evolução Conceitual e o
Sistema Brasileiro de Classificação do Relevo (SBCR)
A transição do conceito clássico
para uma abordagem mais abrangente é consolidada pelo Sistema
Brasileiro de Classificação do Relevo (SBCR). Diferente da visão
estritamente tectônica, o SBCR estabelece critérios morfológicos para a
identificação de montanhas:
- Amplitude altimétrica: Deve ser
superior a 300 metros.
- Declividade: Presença marcante de picos
e vertentes íngremes.
- Arranjo Espacial: Exigência de
continuidade geográfica das elevações.
Essa nova diretriz conta com o
apoio de importantes geógrafos, como Jurandyr Ross, e resulta de um esforço
conjunto entre instituições como o IBGE, a CPRM e a União da Geomorfologia
Brasileira (UGB) para a atualização de materiais didáticos e científicos.
2. Origens Geológicas das
Montanhas Brasileiras
Diferente das cordilheiras
formadas por subducção ativa, as montanhas brasileiras possuem origens
geológicas diversas e complexas:
- Raízes da Cadeia Brasiliana: Formações
que remontam à orogênese neoproterozoica, mantidas hoje por processos de
compensação isostática e pela exposição de batólitos graníticos.
- Divisão do Pangeia (Cretáceo): O rifteamento
do Atlântico provocou o soerguimento de ombreiras de rift, originando
unidades expressivas como a Serra do Mar.
- Compressão Andina (Cenozoico): Esforços
tectônicos leste-oeste resultantes da orogênese andina reativaram falhas
antigas no cristalino brasileiro, dando origem, por exemplo, à Serra
da Mantiqueira.
- Tectônica Moderna (Norte): No extremo
norte, a fricção entre a Placa do Caribe e a Placa Sul-Americana
influenciou formações como o Pico da Neblina (Serra do
Imeri).
3. Unidades Geomorfológicas e
Distinções Necessárias
O território brasileiro apresenta
diversos exemplos que se enquadram na classificação de montanhas ou unidades
montanhosas, como a Serra do Espinhaço (MG/BA), o Maciço
de Baturité (CE), o Planalto da Borborema (PE/PB) e
a Serra do Teixeira (PB).
Contudo, é imperativo distinguir
o relevo montanhoso de outras formas residuais
- Inselbergs: São relevos residuais
isolados, não configurando cadeias montanhosas.
- Cuestas e Glints: Como a Chapada da
Ibiapaba, que são classificados tecnicamente como planaltos devido à sua
estruturação estratigráfica e morfológica.
Em suma, a classificação das
montanhas no Brasil exige uma compreensão que integre a herança geológica
antiga com os processos tectônicos e erosivos mais recentes. A adoção dos
critérios do SBCR permite uma leitura mais precisa da paisagem brasileira,
reconhecendo a complexidade de sua gênese e a importância de atualizar a
divulgação científica sobre o tema.
Nenhum comentário:
Postar um comentário