15 julho 2026

O Novo Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo (SBCR): uma revisão crítica: Uma reinterpretação da geomorfologia nacional a partir de critérios morfométricos, à luz da literatura brasileira e internacional

Introdução

O relevo brasileiro sempre foi ensinado, em livros didáticos e cursos universitários, a partir de três classificações clássicas: a de Aroldo de Azevedo (1949), a de Aziz Ab'Sáber (1970) e a de Jurandyr Ross (1985). Cada uma trouxe avanços conceituais para sua época, mas a coexistência de sistemas distintos — com critérios, escalas e terminologias nem sempre compatíveis — dificultava a comparação de mapas produzidos por diferentes instituições e a padronização do ensino de Geografia Física no país.

Para resolver essa lacuna, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) e a União da Geomorfologia Brasileira (UGB), iniciou em 2019 a construção de um sistema taxonômico único: o Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo (SBCR). Desde então, o projeto avançou por meio de workshops técnicos periódicos — já são cinco realizados até 2026 — reunindo pesquisadores de dezenas de instituições de ensino e pesquisa de todas as regiões do país.

Este texto reúne o estado atual da proposta, sistematiza sua estrutura taxonômica e a contextualiza frente a critérios morfométricos adotados internacionalmente para a definição de montanhas.

Histórico e institucionalização do projeto

O processo de construção do SBCR começou oficialmente em 2019, durante o XVIII Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada, quando pesquisadores apontaram a ausência de um padrão nacional de classificação do relevo. A partir daí, o IBGE passou a coordenar um Comitê Executivo Nacional (CEN/SBCR), com a participação de núcleos locais colaborativos (NLCs) espalhados pelo território, responsáveis por levantar informações regionais.

O segundo workshop, realizado em 2023, consolidou o primeiro grande avanço conceitual: a definição das cinco classes fundamentais do primeiro nível taxonômico — montanhas, planaltos, tabuleiros, superfícies rebaixadas e planícies. Os workshops seguintes, em 2024 e 2025, avançaram sobre a representação cartográfica do primeiro táxon e sobre a definição conceitual do segundo. Uma primeira versão pública da taxonomia é esperada a partir de 2026.

O respaldo acadêmico do sistema já se reflete em publicações revisadas por pares, como o artigo “Breve estado da arte do Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo (SBCR): contribuições de e para a sociedade científica geomorfológica”, publicado na Revista Brasileira de Geografia (IBGE, 2022).

Estrutura taxonômica: uma leitura em múltiplas escalas

O SBCR organiza o relevo em níveis hierárquicos (táxons), do mais geral ao mais detalhado, permitindo que a mesma paisagem seja lida em diferentes escalas de análise — da macroforma regional até feições pontuais de origem erosiva ou antrópica.

1º Táxon — Grandes Formas de Relevo (escala regional)

O primeiro nível estabelece cinco macroformas, definidas por critérios morfométricos e de gênese:

  • Montanhas — o ponto de maior repercussão pública do sistema. Rompe-se com a ideia, difundida por décadas, de que o Brasil não teria montanhas por ausência de orogenias recentes. O critério adotado é estritamente morfológico: amplitude topográfica local superior a 300 metros em relação ao entorno, encostas íngremes e topos aguçados ou em crista, associados a conjuntos serranos (elevações isoladas não se qualificam). Por esse critério, formas de topo aplainado — caso do Monte Roraima — permanecem classificadas como planalto, assim como elevações isoladas como o Pão de Açúcar (RJ) e o Pico do Cabugi (RN).

  • Superfícies Rebaixadas — categoria mais ampla que substitui o antigo conceito de “depressão”: toda depressão é uma superfície rebaixada, mas nem toda superfície rebaixada constitui uma depressão no sentido clássico.

  • Planaltos — áreas de predomínio denudacional, geralmente delimitadas por escarpas.

  • Planícies — áreas de predomínio deposicional, onde a sedimentação supera o desgaste.

  • Tabuleiros — formas de topo plano e bordas escarpadas, típicas de bacias sedimentares costeiras.

Segundo dados do próprio IBGE, áreas montanhosas já foram reconhecidas em 14 unidades da federação, com destaque em extensão proporcional para o Rio de Janeiro e em área absoluta para Minas Gerais, Bahia e Ceará. Formações no interior da Paraíba, como o Pico do Jabre (Serra de Teixeira, Maturéia), com mais de 1.200 metros de altitude, também passaram a ser reconhecidas oficialmente como montanhas.

2º Táxon — Morfoestruturas

O segundo nível relaciona as macroformas à base geológica sobre a qual se assentam, considerando litologia e arcabouço geotectônico:

  • Crátons (escudos cristalinos antigos, como o Cráton Amazônico);

  • Bacias Sedimentares Intracratônicas;

  • Cinturões Orogênicos e Coberturas Cenozoicas.

3º Táxon (e níveis seguintes) — Morfoesculturas e detalhamento

A partir do terceiro nível, o sistema passa a individualizar unidades morfológicas dentro das macroformas já mapeadas, considerando gênese, dinâmica erosiva ou deposicional, rugosidade topográfica e formato de vertentes e vales. É neste nível que se distinguem, por exemplo, modelados de agradação (planícies e terraços fluviais) e modelados de degradação (colinas, morros, cristas). Os táxons subsequentes (4º ao 6º) descem a escalas ainda maiores, mapeando vertentes individuais e feições pontuais associadas a processos erosivos atuais ou a intervenções humanas, como ravinas, voçorocas e taludes.

O critério de montanha em perspectiva internacional

Um dos pontos mais debatidos do SBCR é justamente a definição de montanha, tema que não possui consenso universal na geografia física. Cada país adota seus próprios parâmetros, geralmente combinando altitude relativa, declividade e morfologia do topo:



O critério brasileiro aproxima-se, portanto, do parâmetro morfométrico norte-americano, mas acrescenta exigências de forma (topo e vertente) e de contexto espacial (pertencimento a um conjunto serrano), ausentes na maior parte dos padrões internacionais consultados. Essa combinação de amplitude, morfologia e continuidade espacial é o que justifica, por exemplo, a exclusão de elevações isoladas — ainda que expressivas em altitude — da categoria de montanha.

Desafios estruturais para a implementação

Apesar do avanço metodológico, especialistas apontam ao menos três desafios relevantes para a consolidação do SBCR:

  • Dependência tecnológica — a delimitação precisa das áreas montanhosas e das microformas do relevo exige Modelos Digitais de Elevação de alta resolução e capacidade de geoprocessamento ainda em fase de estruturação pelo IBGE.

  • Incompatibilidade de escala — os táxons mais detalhados (3º em diante) dependem de levantamentos cartográficos de grande escala, hoje inexistentes de forma padronizada para todo o território nacional, o que limita sua aplicação imediata em planos diretores municipais.

  • Transição didática — a mudança do paradigma histórico de “ausência de montanhas” exigirá revisão de livros didáticos e formação continuada de professores da educação básica, processo que tende a se estender por vários anos após a publicação oficial da taxonomia.

Considerações finais

O SBCR representa a tentativa mais ambiciosa já feita de unificar a linguagem da geomorfologia brasileira sob critérios morfométricos objetivos e replicáveis, superando a fragmentação entre classificações regionais que vigorava desde meados do século XX. Ao reconhecer formalmente a existência de áreas montanhosas em 14 estados — sob critérios comparáveis, ainda que não idênticos, aos adotados por agências como o USGS e por organismos como a UIAA — o sistema aproxima o Brasil de um padrão cartográfico mais alinhado às práticas internacionais, ao mesmo tempo em que preserva especificidades próprias da paisagem e da história geológica do território nacional.

A consolidação definitiva do sistema, no entanto, depende ainda da publicação do mapa oficial do primeiro táxon — prevista pelo IBGE para 2026 — e da definição completa dos

níveis taxonômicos subsequentes nos anos seguintes.



Referências

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo. Rio de Janeiro: IBGE, 2019–2026. Disponível em: ibge.gov.br/geociencias.

COMITÊ EXECUTIVO NACIONAL DO SISTEMA BRASILEIRO DE CLASSIFICAÇÃO DE RELEVO. Breve estado da arte do Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo (SBCR): contribuições de e para a sociedade científica geomorfológica. Revista Brasileira de Geografia, v. 67, n. 2, 2022. DOI: 10.21579/issn.2526-0375_2022_n2_212-227.

AB'SÁBER, Aziz Nacib. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

ROSS, Jurandyr Luciano Sanches. Geomorfologia: ambiente e planejamento. São Paulo: Contexto, 1990.

AZEVEDO, Aroldo de. Brasil: a terra e o homem. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1949.

U.S. GEOLOGICAL SURVEY (USGS). Geographic Names Information System — landform definitions. Reston: USGS.

UNION INTERNATIONALE DES ASSOCIATIONS D'ALPINISME (UIAA). Mountain definitions and classification standards.

IBGE. Agência de Notícias. IBGE lança relatório do 3º e 4º Workshops sobre o Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo. Rio de Janeiro, 2025–2026.





11 julho 2026

Corrupção e Política no Brasil: O que os Dados Dizem (e Por Que a Nossa Percepção Falha)

Corrupção e Política no Brasil: O que os Dados Dizem (e Por Que a Nossa Percepção Falha)

Quando o assunto é corrupção na política brasileira, todo mundo tem uma opinião forte. Mas o que acontece quando deixamos as paixões de lado e olhamos diretamente para os dados judiciais?

O envolvimento de parlamentares em processos e investigações é um tema central para entender como a nossa democracia funciona. No entanto, existe um abismo curioso entre a realidade dos números e a forma como a sociedade percebe o problema.

Abaixo, analisamos um levantamento detalhado sobre os deputados federais investigados no Brasil, a distribuição por partidos e o motivo de a opinião pública enxergar esse cenário de forma muitas vezes distorcida.

Raio-X da Câmara: O Que Dizem os Dados?

Com base em um levantamento do Congresso em Foco relativo à legislatura 2019–2023, foram catalogados nominalmente 115 dos 513 deputados federais sob algum tipo de investigação ou processo (seja de natureza criminal, administrativa ou eleitoral).

A apuração foi realizada por meio de consulta pública aos portais do STF, STJ, TSE, TRFs e Tribunais de Justiça estaduais.

A distribuição por partido

Ao analisar a lista nominal dos investigados, a presença de parlamentares abrange 18 legendas partidárias diferentes. Entre as bancadas com maior número absoluto de parlamentares citados, destacam-se:

  • PL: 21 deputados (de 77)

  • PP: 19 deputados (de 58)

  • MDB: 15 deputados (de 37)

  • PT: 12 deputados

  • Republicanos: 10 deputados

  • PSD: 8 deputados

  • União Brasil: 7 deputados

  • PSDB: 6 deputados

  • Outras siglas (PDT, PSB, Avante, PROS, PCdoB, Patriota, PTB, Cidadania, Solidariedade e Podemos) somam os demais casos.

Uma pausa importante para o contexto legal: A maioria expressiva desses processos refere-se a ações de improbidade administrativa (de natureza cível, não criminal), muitas vezes ligadas a mandatos anteriores (como ex-prefeitos). No Direito brasileiro, estar sob investigação não equivale a uma condenação.

Esquerda, Centro ou Direita: Quem é Mais Investigado?

Quando agrupamos as siglas de acordo com o espectro político (seguindo os critérios mais frequentes da literatura de ciência política no Brasil), fica claro que o fenômeno das investigações atravessa todo o arco ideológico:

  • Direita (PL, PP, Republicanos, PTB, Patriota): 52 deputados

  • Centro (MDB, PSD, União Brasil, PSDB, Avante, PROS, Cidadania, Solidariedade, Podemos): 43 deputados

  • Esquerda (PT, PDT, PSB, PCdoB): 20 deputados

Embora exista uma maior concentração numérica no campo da direita na amostragem desta legislatura específica, os dados provam que nenhum espectro político está imune a questionamentos na Justiça.

O Nó da Questão: Por Que a Percepção Pública Distorce os Fatos?

Se os dados mostram que a corrupção e os processos administrativos atingem partidos de todas as ideologias, por que a percepção geral costuma associar o problema com mais força a um lado do que a outro?

Na ciência política e nos estudos de comunicação, essa disparidade é amplamente debatida através de diferentes vertentes:

  1. A Teoria do Agenda-Setting e o Papel da Mídia: Parte dos pesquisadores argumenta que a imprensa define quais temas recebem destaque principal. Vieses editoriais e a concentração dos meios de comunicação poderiam, segundo essa visão, conferir pesos e intensidades diferentes a escândalos de acordo com o partido envolvido.

  2. Impacto e Visibilidade dos Escândalos: Por outro lado, analistas apontam que a percepção pública é moldada pelo tamanho orçamentário e pelo impacto simbólico de grandes operações (como o Mensalão ou a Lava Jato). Casos com transmissões ao vivo e longas investigações gravam-se mais profundamente na memória coletiva.

  3. Viés de Confirmação: O próprio eleitor tende a guardar e compartilhar notícias que confirmem suas crenças prévias, ignorando dados que contrariem sua visão de mundo.

Ponderações Importantes (Limitações da Análise)

Para ler esses dados de forma crítica e responsável, é preciso levar em conta quatro pontos:

  • Recorte temporal: Os dados correspondem ao levantamento feito no final de 2022 (legislatura 2019–2023). Vários processos avançaram ou foram arquivados desde então.

  • Presunção de inocência: Processos cíveis de improbidade diferem de crimes de corrupção passiva ou lavagem de dinheiro.

  • Escopo restrito: A análise foca na Câmara dos Deputados, deixando de fora o Senado e o Poder Executivo.

  • Fluidez ideológica: Classificar partidos no Brasil nem sempre é uma tarefa exata, especialmente em siglas de centro com bancadas heterogêneas.

E você, o que acha?

Acredita que a percepção da corrupção no Brasil é moldada mais pela cobertura da mídia ou pela memória de grandes escândalos históricos? Deixe seu comentário abaixo e compartilhe este post nas suas redes!


Fonte:


CONGRESSO EM FOCO. Levantamento de parlamentares federais condenados por corrupção (por partido na época do fato). Brasília: Congresso em Foco, [2026?]. Disponível em: https://www.congressoemfoco.com.br. Acesso em: 15 jul. 2026.








08 julho 2026

Por que é mais barato prevenir do que reconstruir: o que o Brasil precisa entender sobre desastres geológicos

Por que é mais barato prevenir do que reconstruir: o que o Brasil precisa entender sobre desastres geológicos

Todo ano é a mesma cena. Chove forte, uma encosta desliza, um bairro inteiro fica debaixo d'água, e aí vêm as imagens de casas destruídas, famílias desabrigadas e políticos prometendo que "isso não vai mais acontecer". Só que acontece de novo. E de novo. E a gente segue tratando cada tragédia como se fosse um azar isolado, quando na verdade é um padrão que se repete há décadas.

A pergunta que este texto quer responder é simples: por que insistimos em pagar caro depois do estrago, se prevenir sai muito mais barato?

Desastre natural? Nem tanto

Existe uma ideia meio preguiçosa de que deslizamentos e enchentes são "coisas da natureza", fora do nosso controle. Mas isso não é bem verdade. A chuva é natural, sim. O relevo instável, também. O problema é que, historicamente, as cidades brasileiras cresceram sem planejamento, e quem mais precisava de moradia acabou empurrado para os lugares mais perigosos: encostas íngremes, beira de rio, fundo de vale. Áreas bonitas e centrais ficaram caras demais, e a população de baixa renda foi parar exatamente onde o risco é maior.

Ou seja: um desastre não é só um fenômeno físico. É o encontro entre um perigo natural e uma vulnerabilidade que a gente mesmo criou, ao longo de anos de desigualdade e falta de planejamento urbano. Duas pessoas podem passar pela mesma chuva forte e ter destinos completamente diferentes, dependendo de onde moram, da renda que têm e do quanto o poder público investiu (ou não) em proteger aquele território.

O Brasil até tem leis boas — o problema é a prática

Depois da tragédia de 2011 na Região Serrana do Rio, o país criou a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil, um conjunto de regras que, no papel, mudou o foco: em vez de só correr atrás do prejuízo, o Estado passaria a se preocupar em prevenir. Bonito na teoria.

Na prática, o dinheiro público continua indo majoritariamente para depois que a tragédia já aconteceu — reconstrução, indenização, abrigo emergencial. Pouco vai para impedir que a tragédia aconteça de novo no mesmo lugar. É como gastar uma fortuna consertando o carro toda vez que ele quebra, em vez de fazer a revisão preventiva que custaria uma fração disso.




A conta não fecha (e é por isso que prevenir compensa)

Aqui entra um ponto que organismos como o Banco Mundial vêm martelando há anos: cada real investido em prevenção evita, em média, sete reais em prejuízo depois. Não é só uma questão de bondade ou consciência ambiental — é matemática financeira pura.

E o motivo é simples: quando você espera o desastre acontecer para agir, tudo fica mais caro e mais difícil de prever. Uma obra de contenção de encosta feita com planejamento, antes de qualquer problema, pode custar até quatro vezes menos por metro quadrado do que uma obra emergencial feita às pressas depois que o terreno já cedeu.

E olha que isso nem entra no que fica mais difícil de colocar na ponta do lápis: rua interditada que trava o comércio local, rede de água e esgoto destruída, gente que perde o emprego porque não consegue mais chegar ao trabalho, o impacto psicológico de perder a casa. Esses custos "invisíveis" costumam durar anos e raramente entram na conta oficial do desastre.

O risco tem endereço — e normalmente é o mesmo de sempre

Um dos pontos mais importantes (e mais incômodos) dessa discussão é perceber que o risco geológico não está distribuído de forma aleatória pela cidade. Ele tem endereço certo, e esse endereço quase sempre coincide com onde vive a população mais pobre.

Isso não é coincidência. É reflexo direto de décadas de cidades que cresceram empurrando quem tem menos dinheiro para as áreas mais baratas — que, não por acaso, costumam ser as mais frágeis do ponto de vista geológico. Segurança contra deslizamento e enchente virou, na prática, um privilégio de quem pode pagar por um terreno "seguro".

Por isso, resolver esse problema não é só uma questão de engenharia. Fazer um muro de contenção bem feito ajuda, mas não resolve a raiz da história se a política de habitação continuar empurrando gente para áreas de risco. É preciso pensar prevenção, moradia digna e justiça social como partes do mesmo pacote.

Uma proposta: tratar a prevenção como um ciclo, não como uma ação isolada

A ideia central que trago aqui é organizar essa prevenção como um ciclo contínuo, e não como ações soltas que acontecem de vez em quando. Pensa assim, em quatro etapas que se retroalimentam:

1. Conhecer o terreno. Antes de qualquer coisa, é preciso mapear com precisão onde estão as áreas de maior perigo — usando geologia, dados de chuva, características do solo. Sem esse diagnóstico, qualquer decisão é um tiro no escuro.

2. Monitorar em tempo real. Um mapa parado no tempo não serve de muito. É preciso cruzar essa base com dados atualizados constantemente — pluviômetros, radares, sensores — para transformar o mapa estático em um sistema de alerta que realmente funciona quando a chuva aperta.

3. Agir antes que quebre. Aqui entram tanto obras de engenharia tradicionais (contenção de encostas, drenagem) quanto soluções mais naturais — reflorestamento de encosta, jardins de chuva, pavimentos que absorvem água da chuva em vez de escoar tudo de uma vez. E, claro, regras claras de uso do solo, para impedir que novas construções continuem surgindo em áreas perigosas.

4. Aprender com cada evento. Depois de cada chuva forte ou cada incidente, vale reavaliar o que funcionou e o que não funcionou, atualizando o diagnóstico inicial. É um ciclo que nunca termina — e é exatamente por isso que funciona melhor do que ações pontuais.

O grande ganho desse jeito de pensar é tirar o poder público do modo "apagar incêndio" e colocá-lo no modo "cuidar do território de forma contínua". Menos decreto de calamidade de última hora, mais planejamento de longo prazo.

Zoneamento não é burocracia, é proteção de vida

Um ponto que costuma passar batido: as cartas de risco geológico — aqueles mapas técnicos que mostram onde é perigoso construir — deveriam ser levadas muito mais a sério na hora de planejar a cidade. Elas precisam virar regra, não sugestão.

Isso significa, na prática, usar essas informações para direcionar programas de moradia popular para terrenos seguros, e não repetir o erro de sempre de construir habitação social em áreas de risco só porque o terreno é mais barato. E, para os bairros de encosta que já existem e não têm como simplesmente sumir do mapa, combinar obras de estabilização com soluções mais verdes, sempre cuidando para que a solução em um ponto não jogue o problema (a água, basicamente) para o vizinho de baixo.

No fim das contas

A conclusão de tudo isso é bem direta: esperar o desastre acontecer para agir é a forma mais cara — e mais cruel — de lidar com o risco geológico. O Brasil já tem boa parte do conhecimento técnico necessário para fazer diferente. O que falta é decisão política e financiamento contínuo para transformar prevenção em rotina, e não em exceção.

Investir em mapeamento, monitoramento, engenharia bem planejada e moradia digna em terrenos seguros não é gasto — é economia disfarçada de investimento. E, mais do que isso, é uma forma de dizer que a vida de quem mora em área de risco vale o mesmo cuidado que a de quem mora em bairro nobre.

Prevenir não é luxo. É a decisão mais inteligente — e mais humana — que uma cidade pode tomar.

ADAM SMITH E KARL MARX: A PRODUÇÃO DO ESPAÇO GEOGRÁFICO MUNDIAL ENTRE O LIBERALISMO E O SOCIALISMO: Ensaio teórico em Geografia Econômica e Pensamento Social

 

INTRODUÇÃO

O pensamento de Adam Smith (1723-1790) e Karl Marx (1818-1883) constitui um dos marcos fundamentais da história do pensamento econômico e social, com desdobramentos diretos sobre a forma como a ciência geográfica compreende a produção do espaço mundial. Ainda que ambos os autores tenham se dedicado a investigar os mecanismos de produção, circulação e distribuição da riqueza, suas conclusões teóricas divergem substancialmente quanto ao modo como o território é apropriado, organizado e transformado pela dinâmica do capitalismo.

Smith, precursor do liberalismo econômico clássico, compreendia a configuração espacial como decorrência natural da expansão dos mercados e da integração comercial voluntária entre indivíduos e nações (SMITH, 1996). Marx, por sua vez, desenvolveu uma crítica estrutural ao capitalismo que interpreta o espaço geográfico não como um dado natural, mas como um produto social — condição necessária e, ao mesmo tempo, resultado contraditório da reprodução ampliada do capital (MARX, 2013; HARVEY, 2005).

A partir do diálogo com a geografia crítica contemporânea, sobretudo com as formulações de Milton Santos (2006), Neil Smith (1988) e David Harvey (2005; 2004), é possível demonstrar que a divergência entre os dois autores clássicos se expressa na compreensão do espaço tanto como força produtiva — capaz de gerar eficiência e cooperação — quanto como mercadoria, sujeita à especulação, à exploração e à desigualdade estrutural.

1 O FUNCIONAMENTO DO MERCADO E A ORGANIZAÇÃO DO TERRITÓRIO

1.1 Adam Smith: fluidez territorial e integração dos mercados

Na obra A Riqueza das Nações, publicada originalmente em 1776, Smith argumenta que o livre mercado orienta, de forma espontânea e eficiente, a distribuição geográfica das atividades econômicas (SMITH, 1996). A metáfora da "mão invisível" manifesta-se espacialmente por meio da livre circulação de mercadorias, capitais e força de trabalho, segundo a qual as regiões tendem a se especializar naquilo em que dispõem de maior eficiência produtiva, resultando — na perspectiva do autor — em uma organização territorial harmônica e complementar.

Para Smith, cabe ao Estado um papel infraestrutural específico e limitado: garantir a segurança jurídica da propriedade e assegurar a construção e a manutenção de obras públicas, como estradas, canais e portos. Tais investimentos são considerados essenciais por reduzirem os custos de circulação e ampliarem o alcance físico do mercado, permitindo que a racionalidade econômica atue sobre o território (SMITH, 1996, livro V).

Exemplo aplicado: A expansão das redes ferroviárias e a abertura de novas rotas marítimas durante a Primeira Revolução Industrial britânica, entre o final do século XVIII e o século XIX, ilustram essa concepção. A construção de ferrovias interligando regiões produtoras de carvão e algodão aos portos e centros fabris de Manchester e Liverpool criou uma infraestrutura territorial que unificou mercados antes fragmentados, ampliando a escala da produção e do comércio (HOBSBAWM, 2016).

1.2 Karl Marx: a produção do espaço como exigência da acumulação

Marx rejeita a noção de um equilíbrio espacial espontâneo. Em O Capital, demonstra que a busca incessante por valorização do capital gera uma "anarquia da produção" que se projeta sobre o território (MARX, 2013). A necessidade de reprodução ampliada do capital exige aquilo que a geografia crítica posterior denominou de spatial fix, ou "ajuste espacial": um processo contínuo de destruição criativa de paisagens, voltado a acelerar o tempo de rotação do capital e a absorver os excedentes de capital e de força de trabalho (HARVEY, 2004; 2005).

Nessa perspectiva, o espaço geográfico não constitui um cenário passivo, mas uma produção social moldada pelas contradições internas do sistema capitalista. A concentração e a centralização do capital geram distorções territoriais profundas — como a hipertrofia urbana e o desenvolvimento geograficamente desigual —, processo em que regiões inteiras são integradas ou marginalizadas conforme a rentabilidade dos investimentos privados (SMITH, N., 1988).

Exemplo aplicado: A crise financeira e imobiliária de 2007-2008 evidenciou como a produção do espaço urbano — por meio da especulação imobiliária e da financeirização da habitação — tornou-se epicentro das contradições estruturais do capitalismo contemporâneo, convertendo cidades inteiras, como Miami e Madri, em ativos financeiros voláteis (HARVEY, 2011).

2 DIVISÃO DO TRABALHO E A DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (DIT)

2.1 Adam Smith: especialização regional e vantagens produtivas

Smith identifica a divisão do trabalho como motor primordial do aumento da produtividade, ilustrada por meio do célebre exemplo da manufatura de alfinetes (SMITH, 1996, livro I). Transposto para a escala mundial, esse princípio fundamenta teoricamente a Divisão Internacional do Trabalho (DIT): cidades, regiões e países especializam-se em etapas ou produtos específicos, constituindo redes de interdependência que, segundo a lógica liberal, tendem a ampliar a riqueza de todas as nações envolvidas por meio do comércio internacional — argumento posteriormente sistematizado por David Ricardo na teoria das vantagens comparativas (RICARDO, 1996).

Exemplo aplicado: As cadeias globais de valor contemporâneas exemplificam esse princípio de especialização locacional. Na indústria eletrônica, componentes de um smartphone são frequentemente projetados nos Estados Unidos, fabricados em Taiwan e na Coreia do Sul e montados na China, refletindo a busca por otimização geográfica dos custos e das competências produtivas (DICKEN, 2010).

2.2 Karl Marx: fragmentação espacial e alienação territorial

Marx aprofunda a crítica à divisão do trabalho ao apontar para o processo de alienação (Entfremdung) do trabalhador, dimensão que possui um componente eminentemente geográfico. A separação entre o trabalhador e o produto de seu trabalho materializa-se na segregação socioespacial das cidades: os locais de produção — zonas industriais, periferias precarizadas — encontram-se rigidamente apartados dos locais de consumo da riqueza e dos centros de comando do capital (MARX, 2013; HARVEY, 2005).

Na escala mundial, a divisão do trabalho sob o capitalismo não produz harmonia, mas hierarquização territorial. Estabelece-se uma relação de subordinação geográfica entre centros hegemônicos — detentores de tecnologia e capital — e periferias globais, fornecedoras de força de trabalho barata e de recursos naturais, o que perpetua vínculos de dependência estrutural entre centro e periferia (SANTOS, 2006).

Exemplo aplicado: Os complexos agroindustriais do agronegócio brasileiro e os centros logísticos automatizados de países da periferia global operam, com frequência, sob rígido controle tecnológico e financeiro externo, de modo que o trabalhador local permanece alienado do circuito global de valorização que seu próprio território sustenta (SANTOS; SILVEIRA, 2001).

3 A ORIGEM DO VALOR E A MERCANTILIZAÇÃO DA NATUREZA E DO ESPAÇO

3.1 Adam Smith: recursos territoriais como fatores de produção

Para Smith, a riqueza das nações é mensurada pela capacidade de produção e acumulação de capital, potencializada pela expansão contínua das fronteiras comerciais (SMITH, 1996). Nas economias desenvolvidas, a terra e os recursos naturais integram os custos de produção sob a forma de renda fundiária. O espaço geográfico é concebido, nessa perspectiva, como um estoque de recursos disponíveis e um suporte físico cujas qualidades naturais — fertilidade do solo, proximidade de portos, disponibilidade hídrica — determinam o valor de troca das propriedades e a atratividade dos investimentos.

3.2 Karl Marx: mais-valia e exploração do espaço e da natureza

Ao desenvolver a teoria do valor-trabalho, Marx demonstra que a riqueza capitalista se fundamenta na extração da mais-valia — o trabalho excedente não remunerado ao trabalhador (MARX, 2013). Para que esse valor se realize, o capital necessita converter tanto a força de trabalho quanto a própria natureza e o espaço geográfico em mercadorias.

A expropriação da terra desempenha papel central no processo de acumulação primitiva do capital, ao separar os produtores diretos de seus meios de subsistência territoriais — como no caso histórico dos enclosures (cercamentos dos campos) na Inglaterra dos séculos XVI a XVIII (MARX, 2013, capítulo XXIV). Na tradição da geografia marxista, a exploração econômica não ocorre em abstrato: ela pressupõe a espoliação de territórios, a transformação da terra em propriedade privada absoluta e a degradação ambiental como condição estrutural para a manutenção das taxas de lucro (HARVEY, 2005).

Dimensão de análise

Perspectiva de Adam Smith

Perspectiva de Karl Marx

Espaço geográfico

Suporte físico para o livre comércio e a expansão dos mercados

Produto social e condição necessária para a reprodução do capital

Organização territorial

Tendência ao equilíbrio e à especialização regional harmônica

Produção do desenvolvimento geograficamente desigual

Recursos naturais

Fatores de produção integrados à lógica de custo-benefício

Elementos espoliados e mercantilizados para a extração de valor

Papel do Estado

Garantidor da propriedade e provedor de infraestrutura mínima

Instrumento de classe a serviço da reprodução do capital

Quadro 1 — Síntese comparativa entre as perspectivas de Smith e Marx

Fonte: elaborado pelo autor com base em Smith (1996), Marx (2013) e Harvey (2005).

4 HARMONIA COMERCIAL VERSUS GEOPOLÍTICA DA LUTA DE CLASSES

4.1 Adam Smith: o comércio como vetor de pacificação espacial

Smith sustentava que as relações comerciais internacionais promoveriam a cooperação mútua e a superação de rivalidades geopolíticas. Segundo essa concepção, o livre intercâmbio entre regiões do globo tenderia a criar uma comunidade internacional integrada pelo interesse recíproco, no qual a guerra e a disputa territorial perderiam relevância diante das vantagens do comércio pacífico (SMITH, 1996).

4.2 Karl Marx: imperialismo e conflitualidade territorial

Para Marx e para a tradição geográfica marxista posterior — particularmente nas formulações de Lênin (1984 [1917]) sobre o imperialismo como fase superior do capitalismo —, o conflito de classes é indissociável da disputa pelo controle do território. A necessidade de expansão constante do capital, decorrente da tendência de queda da taxa de lucro, impulsiona sua projeção para além das fronteiras nacionais, gerando o fenômeno histórico do imperialismo (HARVEY, 2004).

A luta entre burguesia e proletariado projeta-se, na escala internacional, como disputa geopolítica por novos mercados, fontes de matéria-prima e controle de rotas estratégicas. O espaço mundial converte-se, assim, em campo fragmentado por intervenções externas, processos de colonização e descolonização, e resistências territoriais protagonizadas por movimentos sociais e populações locais frente à espoliação de suas terras (HARVEY, 2004).

Exemplo aplicado: As disputas geopolíticas contemporâneas pelo controle de reservas de minerais estratégicos — como o lítio no chamado "triângulo" formado por Argentina, Bolívia e Chile — ilustram a persistência da lógica de expansão territorial do capital descrita por Marx e por seus intérpretes contemporâneos, envolvendo tensões entre corporações transnacionais, Estados nacionais e comunidades locais (HARVEY, 2004).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Adam Smith e Karl Marx oferecem matrizes teóricas fundamentais e complementares para a compreensão da produção do espaço geográfico mundial. Smith fornece as bases conceituais que sustentam, até hoje, discursos favoráveis à globalização econômica, à desregulamentação territorial e à abertura de fronteiras ao comércio internacional como caminhos para a eficiência produtiva e a prosperidade (SMITH, 1996). Marx, por sua vez, oferece o instrumental crítico indispensável para desvendar as assimetrias geográficas, a segregação urbana e os mecanismos de dominação que perpetuam a desigualdade entre centro e periferia no sistema-mundo capitalista (MARX, 2013; WALLERSTEIN, 2004).

Geógrafos contemporâneos, com destaque para David Harvey (2005; 2004; 2011), dialogam intensamente com essas formulações clássicas para explicar as crises do capitalismo atual, demonstrando que tanto as contradições apontadas por Marx quanto os mecanismos de expansão de mercado teorizados por Smith continuam a se materializar diretamente na arquitetura geográfica das cidades contemporâneas e na geopolítica mundial.


REFERÊNCIAS

DICKEN, Peter. Global shift: mapping the changing contours of the world economy. 6. ed. Nova York: Guilford Press, 2010.

HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005.

HARVEY, David. O novo imperialismo. São Paulo: Loyola, 2004.

HARVEY, David. O enigma do capital e as crises do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011.

HOBSBAWM, Eric J. A era do capital: 1848-1875. São Paulo: Paz e Terra, 2016.

LÊNIN, Vladimir I. Imperialismo, fase superior do capitalismo. São Paulo: Global, 1984.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.

RICARDO, David. Princípios de economia política e tributação. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4. ed. São Paulo: Edusp, 2006.

SANTOS, Milton; SILVEIRA, María Laura. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001.

SMITH, Adam. A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e suas causas. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

SMITH, Neil. Desenvolvimento desigual: natureza, capital e a produção de espaço. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988.

WALLERSTEIN, Immanuel. World-systems analysis: an introduction. Durham: Duke University Press, 2004.


06 julho 2026

Geografia Estratégica: Como a Leitura do Espaço Gera Vantagem Competitiva

O conhecimento geográfico vai muito além de decorar capitais, mapas ou acidentes físicos. Para quem deseja empreender, gerir ou expandir um negócio, a Geografia oferece uma das ferramentas estratégicas mais valiosas do mercado: a leitura crítica do espaço.

Todo negócio precisa de um lugar para existir — seja um ponto físico de venda ou uma estrutura logística digital — e opera transformando a realidade ao seu redor. Compreender a produção do espaço geográfico significa entender como as pessoas se deslocam, como a renda se distribui, como o relevo impõe barreiras e como as dinâmicas sociais criam ou eliminam oportunidades de mercado.

A seguir, veja como o olhar geográfico se traduz em vantagem competitiva concreta, unindo estratégia de mercado e eficiência logística.


1. Geomarketing e a Escolha da Localização Estratégica

A escolha do ponto comercial ou da sede de uma empresa não deve ser guiada pela intuição, mas por análise espacial rigorosa. O geomarketing utiliza dados demográficos, socioeconômicos e de fluxo de tráfego, todos georreferenciados, para responder a perguntas essenciais para o negócio:

  • Mapeamento do público e do entorno: identificar densidade populacional, perfil de renda e proximidade de concorrentes diretos ou negócios complementares (âncoras).
  • Acessibilidade: avaliar barreiras físicas urbanas — avenidas largas sem travessia de pedestres, rios, ferrovias — que influenciam ou restringem o comportamento de consumo.

2. Gestão de Riscos Ambientais e Urbanos

O planejamento de longo prazo não pode ignorar a vulnerabilidade do território. A análise de riscos urbanos e a geomorfologia protegem o patrimônio do empreendedor:

  • Análise de vulnerabilidade: verificar se a infraestrutura planejada para uma fábrica, centro de distribuição ou loja está localizada em áreas suscetíveis a alagamentos, deslizamentos ou problemas crônicos de drenagem. Isso evita prejuízos financeiros severos decorrentes de interrupções operacionais.

3. Fluxos, Fixos e a Logística em Rede

Negócios que envolvem entrega de produtos, cadeia de suprimentos ou expansão de franquias estão, na prática, gerenciando uma rede geográfica. Como definia o geógrafo Milton Santos, o espaço é composto por fixos (infraestruturas estáveis, como estradas, portos e armazéns) e fluxos (mercadorias, informações e capitais em movimento). Cabe ao gestor estratégico avaliar a qualidade desses fixos para garantir fluidez e previsibilidade nas entregas.

4. O Atrito do Espaço: Relevo, Combustível e Custo de Frete

O relevo de um território funciona como um fator de resistência ativa ao movimento. Do ponto de vista físico e econômico dos transportes, cada aclive ou trecho sinuoso representa gasto energético adicional, com impacto direto na planilha de custos — sobretudo no modal rodoviário.

  • O custo da gravidade: em aclives, o motor exige maior torque, marchas mais baixas e rotações mais altas. Em terrenos montanhosos ou de planalto dissecado, o consumo de diesel de um veículo pesado pode dobrar ou triplicar em comparação a uma planície.
  • Desgaste mecânico: trechos serranos exigem uso constante de freios e freio-motor, o que acelera a depreciação de lonas, pastilhas e pneus, além de sobrecarregar a suspensão em vias afetadas por erosão ou instabilidade do solo.
  • O fator tempo: curvas fechadas e tráfego retido reduzem a velocidade média operacional. Mais tempo na estrada eleva o custo-hora do motorista e reduz o giro da frota.

A tabela a seguir ilustra como a variação do perfil geomorfológico impacta diretamente os indicadores operacionais e a composição do frete:

Tabela: Impacto do Perfil Geomorfológico nos Custos Logísticos

Perfil do TerrenoVelocidade MédiaConsumo de CombustívelÍndice de ManutençãoImpacto no Custo do Frete
Plano (planícies, vales)Alta (80–90 km/h)Padrão (base 100%)BaixoMínimo (frete padrão)
Ondulado (colinas, planaltos)Média (60–70 km/h)+20% a 40%Moderado+10% a 15%
Acidentado (serras, montanhas)Baixa (30–50 km/h)+100% a 200%Muito alto+40% a 60%

5. Localização de Instalações e a "Última Milha"

A escolha de onde instalar um centro de distribuição (CD) ou uma dark store é uma decisão de centralidade e acessibilidade geográfica. Na escala urbana, o posicionamento estratégico visa otimizar a última milha — a etapa final e mais onerosa da entrega ao cliente. Estar bem posicionado geograficamente reduz o tempo de resposta e viabiliza modalidades competitivas, como o same-day delivery.


Conclusões: O Espaço como Variável Ativa de Sucesso

A integração entre conhecimento geográfico, gestão de negócios e logística permite extrair três conclusões fundamentais para o empreendedorismo moderno:

  1. O espaço não é um cenário passivo. O investidor que ignora a geografia trata o território como um pano de fundo estático. Já o gestor de sucesso entende que o espaço é uma força ativa: molda hábitos de consumo, determina a velocidade dos fluxos, define custos operacionais e estabelece o nível de risco do negócio.
  2. A distância é multidimensional. Na logística estratégica, a distância métrica entre dois pontos importa menos do que a distância-tempo e a distância-custo. Um trajeto plano e bem estruturado — mesmo que ligeiramente mais longo em quilômetros — tende a ser mais barato, rápido e seguro do que uma rota retilínea que atravessa barreiras geomorfológicas severas ou gargalos urbanos.
  3. Geotecnologia é ferramenta de sobrevivência. O uso de Sistemas de Informação Geográfica (SIG) — do mapeamento acessível via Google Earth a plataformas robustas de roteirização por perfil longitudinal — transforma dados brutos em decisões visuais precisas. Dominar essas ferramentas reduz a margem de erro na expansão de mercado e na distribuição física, convertendo sensibilidade territorial em lucro e sustentabilidade.



 

09 junho 2026

O Brasil passou a reconhecer oficialmente montanhas — e a ciência explica por quê

    Quem nunca abriu um livro de geografia na escola e leu a clássica afirmação: “O relevo brasileiro é composto por planaltos, planícies e depressões”? Durante muito tempo, essa descrição predominou no ensino da geomorfologia brasileira, embora diversas serras do país apresentem características visualmente associadas a montanhas.

    Em 2026, porém, um novo marco técnico mudou essa discussão: o Brasil passou a reconhecer oficialmente determinadas formações como montanhas dentro de um sistema nacional de classificação do relevo. Mas afinal, o que mudou?


A dificuldade de definir o que é uma montanha

    O principal desafio sempre foi a ausência de um critério universal. Afinal, o que define uma montanha? A resposta varia de acordo com o país e com a metodologia utilizada.

    Nos Estados Unidos, por exemplo, alguns critérios consideram elevações com cerca de 1.000 pés (aproximadamente 305 metros) de relevo relativo. Já entidades como a União Internacional das Associações de Alpinismo (UIAA) e classificações adotadas no Reino Unido utilizam parâmetros mais rigorosos, próximos de 2.000 pés (cerca de 610 metros).

    Na Alemanha, por sua vez, existe o conceito de Reliefenergie (“energia do relevo”), que considera o desnível entre os pontos mais altos e mais baixos de uma área, em vez de analisar apenas a altitude absoluta em relação ao nível do mar.


O relevo brasileiro é diferente

    O Brasil está localizado no interior de uma placa tectônica relativamente estável. Por isso, o país não possui cadeias montanhosas jovens e elevadas como os Andes ou o Himalaia.

    Grande parte das formações brasileiras é muito antiga e passou por milhões de anos de erosão, o que resultou em relevos mais arredondados e menos abruptos. Isso sempre tornou mais complexa a aplicação direta dos critérios internacionais ao território brasileiro.


O papel do SBCR

    Para organizar essa questão, o IBGE liderou, a partir de 2019, estudos que culminaram no Sistema Brasileiro de Classificação do Relevo (SBCR). O objetivo foi criar critérios mais adequados às características geomorfológicas do país.

    Em 2026, o consenso técnico estabeleceu que, para uma formação ser classificada oficialmente como montanha no Brasil, ela deve atender a alguns requisitos fundamentais:


* possuir pelo menos 300 metros de desnível em relação ao relevo vizinho;

* apresentar encostas íngremes;

* integrar um conjunto montanhoso ou uma serra.

    Além disso, o sistema considera aspectos como a organização do relevo e a proeminência da formação na paisagem.


*Nem toda formação elevada entrou na classificação*

    A nova classificação é bastante específica. Algumas formações tradicionalmente associadas a montanhas, como o Monte Roraima, o Pão de Açúcar (RJ) e o Pico do Cabugi (RN), ficaram fora da categoria adotada pelo SBCR devido aos critérios técnicos utilizados, relacionados ao tipo de relevo, ao grau de isolamento ou à configuração geomorfológica.

    Isso não significa que essas formações deixaram de ser relevantes do ponto de vista geográfico ou paisagístico — apenas que pertencem a categorias diferentes dentro do sistema de classificação.


Onde estão as montanhas brasileiras?

    Segundo o IBGE, as áreas classificadas como montanhosas estão distribuídas por 14 estados brasileiros. O Rio de Janeiro se destaca pela proporção territorial ocupada por esse tipo de relevo, enquanto Minas Gerais, Bahia e Ceará concentram algumas das maiores extensões montanhosas do país.


Até mesmo regiões da Amazônia passaram a integrar oficialmente esse mapeamento geomorfológico.

    Mais do que uma simples mudança de nomenclatura, a atualização representa um avanço na compreensão científica do território brasileiro. Hoje, formações como a Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro, podem ser reconhecidas oficialmente como áreas montanhosas com base em critérios técnicos adaptados à realidade geológica do Brasil.

Figura 1: montanha localizados na Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro. Fonte: Acervo do IBGE

Assim, o país passa a valorizar de forma mais precisa a diversidade e a complexidade do seu relevo.

20 maio 2026

A Produção do Espaço Geográfico e a Vulnerabilidade Socioambiental diante dos Eventos Extremos: O Caso do Litoral de Pernambuco e Paraíba (Maio de 2026)

 

INTRODUÇÃO

    O mês de maio de 2026 revelou, com contundência, a fragilidade estrutural das metrópoles litorâneas do Nordeste brasileiro. Os elevados acumulados pluviométricos que assolaram os estados da Paraíba e de Pernambuco não devem ser interpretados como fenômenos isolados, mas como um elemento da produção do espaço geográfico que, ao longo das décadas, consolidou um cenário de profunda desigualdade ambiental.

Dinâmicas Atmosféricas e o Regime Pluviométrico

    A precipitação no setor oriental do Nordeste durante o outono e início do inverno austral é historicamente caracterizada pela atuação de sistemas sinóticos específicos. Conforme ressaltado por Neves, Alcântara e Souza (2016), os Distúrbios Ondulatórios de Leste (DOL) desempenham um papel central nesse regime. Estes sistemas, que se propagam embebidos nos ventos alísios, ao atingirem a faixa litorânea, encontram condições favoráveis para o desenvolvimento de instabilidade.

    A literatura científica, como a modelagem espacial apresentada por Souza et al. (2022), já indicava que a "Mata Paraibana" possui um pico de precipitação máxima diária entre os meses de abril e junho. Contudo, o que observamos em 2026 é a sobreposição desses sistemas naturais com o agravamento das mudanças climáticas globais, conforme sustenta a análise de Marengo et al. (2025), onde o aquecimento antropogênico deixa de ser uma projeção futura para se tornar um agente direto na alteração do comportamento dos sistemas sinóticos, exacerbando as vulnerabilidades preexistentes.

O Fator Antropogênico e a Estrutura do Risco

    O Sexto Relatório de Avaliação do IPCC (2022) aponta, com alta confiabilidade, que o Nordeste brasileiro figura entre as regiões mais sensíveis às mudanças climáticas. O aquecimento dos oceanos intensifica a evaporação e altera a dinâmica dos sistemas de ventos, potencializando a magnitude e a frequência de eventos extremos.

    Contudo, é imperativo reforçar que o evento que observamos não constitui um "desastre" da natureza. O que ocorre é um desastre social, elaborado no processo de produção do espaço geográfico mediante as contradições socioeconômicas do sistema capitalista. Como bem destacam Marengo e Scarano (2016, apud Rocha, 2023), as cidades costeiras brasileiras enfrentam um "risco crescente de enchentes" e "deslizamentos de terra" decorrentes dessa realidade, mas o impacto é ditado por uma urbanização que ignora as restrições geológicas e geomorfológicas em prol da exploração fundiária.

Infraestrutura, Desigualdade e Vulnerabilidade Social

    A tragédia que se repete não é uma fatalidade climática; é um desastre social. O crescimento urbano desordenado, impulsionado por um mercado imobiliário excludente, empurra as populações de baixa renda para áreas de encostas instáveis ou baixadas suscetíveis a inundações — as únicas "disponíveis" dentro da lógica de segregação espacial.

  Conforme aponta a literatura sobre vulnerabilidade socioambiental (Costa, 2024), a ausência de políticas de saneamento, a ocupação de áreas de preservação ambiental e a carência de equipamentos urbanos de qualidade em bairros periféricos formam um quadro onde o risco é, estruturalmente, distribuído de forma desigual. As populações mais pobres são, invariavelmente, as que residem nos locais com menor infraestrutura para resistir ao impacto das chuvas, tornando a "vulnerabilidade" uma marca permanente de sua existência nas metrópoles nordestinas.

Referências Bibliográficas

COSTA, Maria Conceição Lima. Vulnerabilidade Socioambiental na Região Metropolitana de Fortaleza. 2024. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2024.

IPCC. Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Contribution of Working Group II to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge: Cambridge University Press, 2022.

MARENGO, José Antonio; CAMARINHA, P. I.; ALVES, L. M.; SILVA, V. P. Mudanças Climáticas e Eventos Extremos: O Cenário Brasileiro em 2026. São Paulo: Edusp, 2025.

NEVES, Daniel Jorge D.; ALCÂNTARA, C. R.; SOUZA, E. P. Estudo de caso de um distúrbio ondulatório de leste sobre o Estado do Rio Grande do Norte – Brasil. Revista Brasileira de Meteorologia, v. 31, n. 4, p. 490-505, 2016.

ROCHA, João D. Adaptação das Cidades Costeiras Brasileiras Receptoras de Impactos do Aquecimento Global. In: FRONTEIRAS DO BRASIL: o litoral em sua dimensão fronteiriça. v. 8. Brasília: Ipea, 2023. p. 323-345.

SOUZA, Lucas S.; ALMEIDA, R. G.; FERREIRA, M. A.; SANTOS, P. H. Modelagem Espacial de Chuvas Intensas no Estado da Paraíba. Revista Brasileira de Meteorologia, v. 37, n. 3, p. 373-383, 2022.

RENAN SANTOS FOI CASSADO?

Antes de compartilhar essa informação, é importante entender o que realmente aconteceu. A decisão do ministro Dias Toffoli, no TSE, é cautel...